«Anacrónica»
Surpreende que, em voo para a Noruega, o PR Cavaco tenha usado ao vivo o adjectivo «anacrónica». Só pode ter sido gafe, porque esta é uma palavra proibida pelos assessores de imagem, de tal forma evidencia, por si mesma, o anacronismo da respectiva intervenção. É difícil, aqui e agora, concretizar algo mais retrógrado do que dez anos de Cavaco como PR, em conflito com a Constituição e o Portugal de Abril.
Aliás, a caracterização pelo PR Cavaco do alegado anacronismo da legislação sobre a cobertura de eleições pela comunicação social, para além de lhe ter permitido revisitar o ódio à reforma agrária e a bazófia sobre a sua década de primeiro-ministro, serviu apenas para atestar a sua fidelidade ao poder económico-mediático e aos seus objectivos antidemocráticos.
Cavaco está preocupado com a continuidade da política de direita e o «day after» à sua próxima saída da presidência.
No discurso de 25 de Abril, na AR, cuja relevância foi ter sido o último naquele quadro, Cavaco voltou à tese do «consenso» de PS e PSD, porque «...só deste modo … será possível ... garantir a estabilidade política e a venerabilidade… e enfrentar com êxito os desafios que o futuro nos coloca...».
Esta arenga requentada comporta um conjunto de tretas, a merecer denúncia. Desde logo, porque o famigerado consenso de PS, PSD e CDS, na política de direita, sempre existiu, sem que para o efeito importe qual deles governa; depois, porque, como reconhece o próprio PR, os Programas «Nacional de Reformas» e «de Estabilidade» deste Governo e o «Cenário Programático – Uma década para Portugal» do PS são instrumentos para prosseguir a mesma política de direita – concentrar riqueza, reconfigurar o Estado, roubar direitos, salários e reformas, manter a sujeição à UE – mas com diferenças de pormenor quanto baste, para simular que alguma coisa pode mudar.
«Consenso» propõe Cavaco, para que prossiga a anacrónica política de direita. E claro que o PSD diz que sim, para minorar a inevitável grande derrota eleitoral, mas segura o CDS, porque não lhe resta outro caminho. E claro que o PS diz que não, para manipular alguns desiludidos, mas garante à sorrelfa que vai continuar a política de desastre nacional.
Basta desta política anacrónica. É urgente um Portugal com futuro.