«Anacrónica»

Carlos Gonçalves

Surpreende que, em voo para a Noruega, o PR Cavaco tenha usado ao vivo o adjectivo «anacrónica». Só pode ter sido gafe, porque esta é uma palavra proibida pelos assessores de imagem, de tal forma evidencia, por si mesma, o anacronismo da respectiva intervenção. É difícil, aqui e agora, concretizar algo mais retrógrado do que dez anos de Cavaco como PR, em conflito com a Constituição e o Portugal de Abril.

Aliás, a caracterização pelo PR Cavaco do alegado anacronismo da legislação sobre a cobertura de eleições pela comunicação social, para além de lhe ter permitido revisitar o ódio à reforma agrária e a bazófia sobre a sua década de primeiro-ministro, serviu apenas para atestar a sua fidelidade ao poder económico-mediático e aos seus objectivos antidemocráticos.

Cavaco está preocupado com a continuidade da política de direita e o «day after» à sua próxima saída da presidência.

No discurso de 25 de Abril, na AR, cuja relevância foi ter sido o último naquele quadro, Cavaco voltou à tese do «consenso» de PS e PSD, porque «...só deste modo … será possível ... garantir a estabilidade política e a venerabilidade… e enfrentar com êxito os desafios que o futuro nos coloca...».

Esta arenga requentada comporta um conjunto de tretas, a merecer denúncia. Desde logo, porque o famigerado consenso de PS, PSD e CDS, na política de direita, sempre existiu, sem que para o efeito importe qual deles governa; depois, porque, como reconhece o próprio PR, os Programas «Nacional de Reformas» e «de Estabilidade» deste Governo e o «Cenário Programático – Uma década para Portugal» do PS são instrumentos para prosseguir a mesma política de direita – concentrar riqueza, reconfigurar o Estado, roubar direitos, salários e reformas, manter a sujeição à UE – mas com diferenças de pormenor quanto baste, para simular que alguma coisa pode mudar.

«Consenso» propõe Cavaco, para que prossiga a anacrónica política de direita. E claro que o PSD diz que sim, para minorar a inevitável grande derrota eleitoral, mas segura o CDS, porque não lhe resta outro caminho. E claro que o PS diz que não, para manipular alguns desiludidos, mas garante à sorrelfa que vai continuar a política de desastre nacional.

Basta desta política anacrónica. É urgente um Portugal com futuro.

 



Mais artigos de: Opinião

Liberdade de desinformar

A recente iniciativa, entretanto congelada, do PS, PSD e CDS, em relação à cobertura por parte dos órgãos de comunicação social sobre os actos eleitorais, levando-os à apresentação de uma primeira proposta de alteração do quadro legal em...

Uma «história» ultrajante

O grupo Jerónimo Martins anunciou a 29 de Abril ter registado lucros de 64,8 milhões de euros nos primeiros três meses deste ano, o que representa um aumento de 3,9 por cento face aos lucros obtidos em igual período de 2014. Ao final do mesmo dia soube-se pela agência Lusa que os...

Para que nunca<br>mais aconteça

A 2 de Maio de 1945 o exército da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas tomava o Reichstag. A bandeira vermelha com a foice e o martelo, hasteada por um soldado soviético, ondulava em Berlim. Passados alguns dias, a 8 de Maio de 1945, a Alemanha nazi assinava a sua...

À puridade

Hoje é domingo e houve duas notícias no fim-de-semana – o despiste de um automóvel, que matou cinco peregrinos a caminho de Fátima e a greve dos pilotos da TAP que, desde o início, impõe um duelo entre a presunção do sindicato dos pilotos numa greve...

Com os olhos postos<br>no futuro

Num tempo em que o domínio das multinacionais do agronegócio no mundo é cada vez maior – determinando tipos e dimensão das produções e os preços dos factores de produção ao produtor e ao consumidor –, no qual a divisão internacional do trabalho se desenvolve a favor do grande capital e das oligarquias financeiras, e que parte dos solos aráveis estão nas suas mãos ou dependem de si, a soberania alimentar assume uma importância decisiva para a sobrevivência e independência dos povos e o progresso social.