Uma «história» ultrajante

Anabela Fino

O grupo Jerónimo Martins anunciou a 29 de Abril ter registado lucros de 64,8 milhões de euros nos primeiros três meses deste ano, o que representa um aumento de 3,9 por cento face aos lucros obtidos em igual período de 2014.

Ao final do mesmo dia soube-se pela agência Lusa que os supermercados Pingo Doce, propriedade do referido grupo, iam voltar a fazer «uma acção especial» no feriado do 1.º de Maio. A agência noticiosa dava ainda conta de uma comunicação interna dirigida aos «colaboradores», onde a direcção da cadeia de supermercados prometia «voltar a fazer história», dizia contar com todos para transformar a data «em mais um dia memorável», e advertia que «nesse dia, todas as lojas vão abrir às 8h» (e não às 9 horas como de costume). Alguns responsáveis de loja, mais pragmáticos, fizeram saber que «há hora de entrada, mas não há [hora] de saída».

Para quem ainda acredita em fadas, cabe dizer que as 382 lojas que o Pingo Doce tem em Portugal venderam no primeiro trimestre 722 milhões de euros, valendo em Março 24,2 por cento do consolidado pela Jerónimo Martins. De reter, também, que Alexandre Soares dos Santos, recentemente substituído na presidência do grupo pelo filho, Pedro Soares dos Santos, integra o conselho de patrocinadores da Associação Cristã de Empresários e Gestores.

A cultura «cristã» e «humanista» que preside ao grupo, retalho incluído, dará certamente o «amén» a muita coisa, mas não certamente ao direito ao trabalho com direitos. A «história» que por ali se faz, tirando partido do estado de necessidade dos que ajudaram a empobrecer enquanto os seus patronos ascendiam ao restrito círculo dos mais ricos do mundo, é feita de exploração, de congelamento de salários, de desregulação dos horários de trabalho que desestruturam famílias, de direitos roubados, de pressões e muita intimidação. O respeito pelo Dia Internacional do Trabalhador, que teve no seu cerne a luta pela jornada de oito horas, não cabe na «história» de «filantropos» como os Soares dos Santos, para quem pagar «acima do salário mínimo» deve ser uma espécie de bula que dá direito a subjugar quem empobrece a trabalhar. Não há um pingo de doce nesta «história» ultrajante. Só muitas sementes de revolta a germinar.

 



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