À puridade

Henrique Custódio

Hoje é domingo e houve duas notícias no fim-de-semana – o despiste de um automóvel, que matou cinco peregrinos a caminho de Fátima e a greve dos pilotos da TAP que, desde o início, impõe um duelo entre a presunção do sindicato dos pilotos numa greve significativa, a haver, e correspondente presunção do Governo a manusear percentagens para exibir o putativo fracasso da greve, que há.

O certo é que, para além da tragédia dos peregrinos, que teve a cobertura correspondente a estes casos chocantes, o assunto da greve da TAP – que de há duas semanas para cá abria os telejornais – continuou espalhafatosamente no enfoque apenas na sexta-feira e no sábado, onde as televisões fizeram «directos» de hora a hora a questionar as porta-vozes da empresa sobre «as percentagens da greve», para no domingo ser trasladado para as traseiras dos noticiários, exangue como a própria greve que, segundo as tais percentagens, se tem quedado pelos 30 por cento.

Com isto, o noticiário televisivo deu por informado o País, passando de raspão – ou ignorando-os – assuntos como o resultado de um estudo da Boston Consulting Group sobre a eficácia dos caminhos-de-ferro europeus e que coloca Portugal em penúltimo lugar (entre a Polónia e a Bulgária, tal como no mesmo estudo em 2012), apontando-se a causa: o desinvestimento no sector ferroviário nacional.

Se a informação televisiva subalternizou o estudo anterior, o mesmo fez em relação aos escândalos da perpetuação dos estágios não remunerados, tanto do agrado dos patrões e que foi acesamente discutido na AR na sexta-feira passada, ou as suspeitas de burla tributária na Obra Diocesana do Porto, que assiste mais de 2500 pessoas e recebe mais de cinco milhões de euros da Segurança Social, ou a acusação de corrupção do ex-director do MAI em adjudicações irregulares de obras na PSP, GNR, ANPC e SEF ou, ainda, a arguição de um ex-director de investigação do SEF por ter avisado o antigo director, Jarmela Palos (também arguido), de buscas policiais no «caso vistos Gold».

Mas o que passou tão despercebido, que faz suspeitar de silenciamento deliberado, foi a afirmação extraordinária do primeiro-ministro na inauguração duma queijaria em Aguiar da Beira. Disse ele que «está ali o meu amigo Dias Loureiro», que «conheceu mundo, é um empresário bem sucedido (...) e sabe (…) que se nós queremos vencer na vida, se queremos ter uma economia desenvolvida, pujante, temos de ser exigentes, metódicos».

Passos Coelho é um homem que fez vida na Tecnoforma, mas tal elasticidade não lhe permite emular, em discurso público, uma criatura do calibre de Dias Loureiro, saído do Conselho de Estado por tranquibérnias várias no BPN, confluindo no «desaparecimento» de 40 milhões de euros.

É verdade que a governação do País, com privatizações a mata-cavalos, se transformou num saque a céu aberto.

Mas escolher Dias Loureiro como «símbolo» é admiti-lo, à puridade.




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