Liberdades em risco
Mais de 18 mil pessoas de todos os continentes deram a sua cara para um original protesto de imagens em três dimensões sonorizadas contra a recém-aprovada «lei da mordaça».
Nova lei atenta contra liberdades democráticas
A «manifestação» foi organizada pela plataforma «Não Somos Delito», que recebeu imagens e gravações áudio de milhares de pessoas de todo o mundo, solidárias com os movimentos que exigem a revogação da nova lei de Segurança dos Cidadãos em Espanha.
Baptizada pelo povo como «lei da mordaça», o diploma prevê pesadas multas para quem se manifeste na rua, nomeadamente frente ao parlamento, sem autorização prévia.
E foi precisamente frente ao parlamento que a plataforma decidiu projectar os seus hologramas. O protesto fez-se ouvir durante uma hora, mas os manifestantes não estiveram lá.
Como relatou o correspondente da Lusa, «uma pequena "multidão" de hologramas desfilava uma e outra vez, com palavras de ordem sincopadas, exactamente como na vida real: "A lei mordaça é uma ameaça!" ou "Estas são as nossas armas!", gritavam».
Carlos Escaño, um dos porta-vozes da «Não Somos Delito», também ele transformado em holograma, «salta para a frente do cortejo» para declarar: «Hoje são as manifestações e reuniões espontâneas na rua, e amanhã o que será? Hoje o nosso corpo não está aqui fisicamente, mas os nossos direitos sim».
A ideia partiu de um grupo de profissionais do cinema, televisão e publicidade, preocupados com a gravidade da nova lei. Entenderam ser uma metáfora perfeita dos objectivos do governo e apelaram através do site www.hologramasporlalibertad.org ao envio de imagens e gravações de palavras de ordem que foram utilizadas na montagem.
Alejandro Selma, outro dos promotores, garantiu que a plataforma vai continuar
a organizar protestos para impedir que a lei entre em vigor a 1 de Julho.
Por outro lado, reconheceu que o «protesto virtual» é uma espada de dois gumes: «provamos que se pode fazer uma manifestação sem as pessoas estarem fisicamente presentes», mas isso «é o sonho de qualquer governo que queira restringir as liberdades».
No final da acção foi lido um manifesto que qualifica a nova lei de «repressiva» e como um «golpe terrível» contra as liberdades democráticas, designadamente a liberdade de expressão e de reunião.
O documento lembra ainda que 82 por cento da população é favorável à retirada da lei e que, nas mais de 87 mil manifestações realizadas nos últimos anos em Espanha, só há registo de incidentes em menos de um por cento delas, segundo dados do Ministério do Interior.