Os vende pátrias

Margarida Botelho

O que é que se pode chamar ao primeiro-ministro de um país que vai a outro tomar o pequeno-almoço com donos de multinacionais e o que tem de melhor para dizer sobre a sua pátria é que as empresas de transportes públicos estão à venda a bom preço, que o povo suporta grandes sacrifícios «sem pôr em causa a paz social» e que o país «tem grande resiliência, com uma grande previsibilidade política, económica e social»?

Não é que seja grande novidade, nem deste Governo, nem de outros do PS, nem sequer do Presidente da República. Para vergonha do País, governantes que vão ao estrangeiro oferecer um povo baratinho são muitos. Desta vez, o governante de serviço foi o próprio primeiro-ministro, que foi ao Japão em visita oficial e resolveu oferecer os préstimos nacionais às multinacionais japonesas.

Passos Coelho falou dos recursos naturais? Da mão-de-obra qualificada? Do desenvolvimento científico, tecnológico, nas áreas da saúde ou da cultura? Falou da qualidade de vida? Da educação? Do investimento na capacidade produtiva? Não. Passos Coelho optou por oferecer a imagem de um País pobre e resignado, de mão estendida, disposto a tudo.

É este o modelo de desenvolvimento que a política de direita tem para oferecer ao povo português. Um paraíso de exploração, de baixos salários, desemprego e precariedade, em que as multinacionais podem montar e levantar a tenda quando bem entenderem, com louvores garantidos.

Uma imagem que além de tudo não corresponde à realidade. Este povo não comeu e calou, nem a política deste Governo, nem a dos anteriores. Passos Coelho pode ir ao estrangeiro gabar a sua governação as vezes que entender. Cá dentro é que a coisa fia mais fino, porque não só o Governo não faz o quer aos trabalhadores e ao povo, como não há ministro nem secretário de Estado que possa sair à rua sem ouvir um coro de protestos. Se há Governo politicamente derrotado e socialmente isolado, este é um belo exemplo.

Voltando à pergunta inicial: o que é que se pode chamar ao primeiro-ministro de um país que o quer vender a retalho? Vende pátrias é capaz de ser o nome mais educado que se lhe pode chamar.




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