Delenda est
Catão o Velho, Cônsul e Censor na República Romana, dedicou a partir de 147 a.C. os últimos anos da sua vida a promover a destruição de Cartago, a potência mediterrânica rival de Roma, finalizando todos os discursos com a frase Ceterum censeo Carthaginem esse delendam – «Além disso, opino que Cartago deve ser destruída» (a frase ficaria plasmada na fórmula literária «Delenda est Carthago» – «Cartago deve ser destruída»), que lhe valeu a celebridade da frase, do conceito e a declaração de guerra efectiva a Cartago, destruída «sem ficar pedra sobre pedra» na «Terceira Guerra Púnica».
O conceito desta frase de Catão é imperialista e aponta, em relação «ao inimigo», a sua destruição total e sem conversações de qualquer espécie, filosofia expansionista em que se alicerçou o Império século e meio depois, por estranha ironia para com o feroz conservadorismo republicano e rural do severo Censor.
Em Portugal, a maioria do povo há muito que anda a gritar o seu «delenda est» ao Governo.
Nestes quatro anos de chancelaria Passos/Portas tivemos de tudo, em matéria de abuso. Aliás, a tradição do abuso do poder é antiga e crescente, culminando em Sócrates e Passos/Portas – os governos que, já sem pudor, abusaram abertamente das maiorias democráticas obtidas em eleições, para governar em registo absoluto. Foi assim com Sócrates e os «Pec», continuou assim a coligação PSD/CDS, mas num patamar da política de direita que ousaria afrontar os fundamentos do próprio Portugal de Abril.
Esse «novo tempo», a que Coelho, ignorantemente, baptizou de «novo paradigma», «quis ir além da troika» e, a coberto da dita, desencadeou uma política sempre para além dos limites constitucionais, afrontando por método o TC e o regime democrático constitucional e, ao longo de quatro anos, como que espalhou a peste e a fome no território português, estiolando tudo à volta, sobretudo em matéria dos direitos sociais dos portugueses.
O descrédito deste Governo é indescritível e já chegou ao extremo de nenhum dos seus membros assumir qualquer responsabilidade política pelos atropelos governativos com que são confrontados já diariamente. Os casos sucedem-se, inacreditáveis, seja com a ministra da Justiça a «reformar» com o caos informático, administrativo e das estruturas judiciárias sem assumir um pingo de responsabilidade, idem para o ministro da Saúde ou o desconchavo do Ensino torpedeado por Crato ou ainda a ministra das Finanças, que continua a pairar no éter sem nada dizer dos escândalos das «listas VIP» ou dos acessos indiscriminados aos dados fiscais dos cidadãos.
Dá ideia que se assumem inimputáveis de cambulhada com o PR, que, pelos vistos, optou por ser «Presidente do Governo».
Mas no governo nunca há «inimputáveis». Hão-de verificá-lo amargamente nas próximas eleições, quando os portugueses fizerem ouvir o seu «delenda est».