Ilusões

João Frazão

Um dos traços da ofensiva ideológica em curso está construída com base na ideia de que a responsabilidade pela situação de cada um assenta única e exclusivamente sobre os ombros do próprio, procurando ilibar assim a responsabilidade dos que, com as suas políticas, impedem a esmagadora maioria de ter uma vida digna. Estás desempregado, esforça-te que encontras emprego! Não tens casa, constrói uma! Não tens comer para os teus filhos, a culpa é tua!

Para provar que cada um pode desenrascar-se sozinho, expressões como a do empreendedorismo, que sucede ao anglicismo «self made men», entram-nos pela casa dentro via comunicação social, e estão cada vez mais presentes na formatação forçada de que estão a ser alvo as novas gerações, desde muito cedo até aos mais elevados níveis de formação, passando pelas estruturas do Ministério do Emprego que, para entreter dezenas de milhares de desempregados, e para os excluir dos números do desemprego, inventaram uns «cursos» de técnicas de procura activa de emprego, com umas aspas bem acentuadas, desenvolvendo assim a teoria peregrina de que procurar emprego é tudo uma questão de técnica, numa desesperada tentativa de iludir que emprego é coisa que não existe, conforme confirmam as estatísticas que anunciam a destruição de 56 700 empregos, apenas desde Setembro.

Ora este escrito está relacionado com uma reportagem televisiva, que quis mostrar a «história de empreendedores de sucesso em contra-ciclo», exactamente no dia em que passaram quatro anos sobre o pedido de intervenção da troika, em que PS, PSD e CDS enfiaram o País.

Reportagem que, culminando na pérola, anunciada por um «jovem de sucesso», de que, «se eu [ele] consegui começar do zero, todos conseguem», pretendia, a partir do exemplo de quatro casos isolados, fazer esquecer os milhares de dramas pessoais que essa fatídica decisão trouxe a centenas de milhares de portugueses.

Reportagem cuja imagem de marca pode ser a do «apostador profissional» que, depois de ter começado a vida por colocar cadeiras em estádios portugueses, conduz hoje o seu Ferrari.

Um país de ilusões que não pode fazer esquecer os que, todos os dias, lutam para afastar de vez estas políticas e construir um Portugal onde todos tenham a vida digna a que têm direito.




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