Conversa fiada
Não se soubesse ao que andam e ficaríamos rendidos à comovente inquietude de alguns perante o que designam de «desoladora fragmentação político-partidária». Salvaguardadas que sejam as diferenças de intenções entre subscritores de um designado apelo «Por um diálogo para um governo de esquerda» dir-se-ia, olhando para nomes como os de Carlos Silva ou Elísio Estanque, que aquilo que os move é o indisfarçável propósito de dar ao PS o fôlego e argumentos que o resgatem do regaço da política de direita.
Por entre as usuais considerações com que mimoseiam o PCP, seja o que apelidam de «atitude estéril e politicamente inútil» ou de alegada luta sobre a «verdadeira vanguarda», o que importa reter é a categórica conclusão de que «qualquer estratégia política que vise uma mudança significativa para o futuro do País não permite prescindir do PS». Ainda que com atraso se poderia recomendar a quem, beneficiando da generosa cedência de uma página por inteiro do Público, se deu ao trabalho de produzir tão extenso e rebuscado texto, que com menos palavras e conversa fiada teriam chegado ao que haviam decido querer concluir. Tivessem desejado os autores exercitar os neurónios e teriam concluído que, mais do que clamar por um diálogo para um governo de esquerda, mais ganhariam em colocar na ordem do dia o diálogo para uma política de esquerda. Opção que destroçaria o apriorismo conclusivo que decretaram. Há «cientistas» assim: quando a experimentação não confirma a tese ajeita-se uma à outra. Invocam os autores que «as esquerdas à esquerda do PS terão de estar à altura das suas responsabilidade (…) quando se impõe um imperativo patriótico e realmente solidário perante as privações e sofrimento de um povo». Movessem-os razões de seriedade e teriam dado conta que aquilo que designam por «problemas candentes da pobreza, do desemprego e da precariedade» têm precisamente na governação do PS e da sua política de direita um factor de origem não despiciente. E sobretudo teriam reparado que a «mudança significativa» que reclamam teve com o PS no governo, detendo maioria absoluta, exuberante concretização. Assim como tivessem isenção para tal e há muito que reconheceriam que não é o PCP que faltará a uma política patriótica e de esquerda.