Das pedras
O primeiro-ministro grego, Alexis Tsipras, declarou que os governos de Portugal e de Espanha constituem «um eixo de oposição activa» ao seu Executivo, esforçando-se para que o governo grego não tenha qualquer sucesso nas suas reivindicações junto da UE e, se possível, seja derrubado, acrescentando que o fazem para sobreviverem politicamente nos seus respectivos países.
O governo grego pode errar no que quiser, que aqui acertou em cheio.
Desde o «jogo de crianças» do chanceler Passos que foi dado o mote ao que fazer com os resultados eleitorais na Grécia: o partido vencedor e o governo dele resultante deviam ser combatidos fervorosamente, pois tinham atrás de si a maioria do povo grego que, não só apoiou quem lhe apresentava um programa anti-austeritário e de soberania nacional, como reduziu a cinzas o PS local (PASOK) e desalojou do poder o governo liderado pela Nova Democracia, ambos do «arco da governação» e directos responsáveis pela devastação social imposta pelas troikas de Bruxelas.
Ora isso era um «mau exemplo», não para Portugal, mas para a coligação Coelho/Portas, que lidera a mesma política no nosso País. Em facto, as eleições gregas comprovaram duas coisas: uma, que a política da «austeridade» sem fim conduzia a um desastre social e económico; outra, que os povos, mesmo quando reduzidos a «eleitorados» burgueses, acabam por reagir contra abusos sem fim.
Mas não foi apenas Tsipras a denunciar o protagonismo de Portugal no ataque à Grécia; a imprensa alemã escarrapachou que a ministra das Finanças, Maria Luís Albuquerque, pedira pessoalmente ao seu congénere alemão que «não cedesse» às propostas do governo grego, coisa que a própria, muito álacre, aos costumes disse nada.
Razão tinha Varoufakis, ministro das Finanças grego, quando classificou os do Governo português «mais alemães do que a Alemanha». Passos Coelho «acusou o toque» num telegrama para Bruxelas, onde se afirma «perplexo» com as «críticas infundadas» de Tsipras... e confirma, com a «queixa», as acusações deste.
O certo é que a actual elite governamental portuguesa – na sua subserviência aos poderosos e traição aos que com Portugal partilham as agruras do «resgate» – se assemelha a congéneres do passado, como a nunca demais lembrada alta nobreza que, na crise do Interregno, se bandeou por Castela e pela submissão nacional ao poderoso vizinho, ou a mesma alta nobreza que, em 1449, terçou armas em Alfarrobeira contra o infante D. Pedro e a sua visão progressista e antimedieval para o nosso País.
Do ponto de vista ideológico, isto é sempre a mesma gente – os poderosos, por definição reaccionários e agarrados com unhas e dentes ao passado, onde o seu poder sabe onde está o caminho das pedras.
Até os derrubarem dos caminhos abaixo.