Realidade, causas e solução
A pobreza entre as crianças e adolescentes portugueses corresponde a uma situação de enorme gravidade no plano humano e traduz aspectos da vida de um povo e de um País que tem que ter outro rumo.
O estudo publicado recentemente, «As crianças e a crise em Portugal»1, refere que milhares de crianças irão sofrer consequências para a vida. Segundo a Convenção dos Direitos da Criança (CDC), «criança é todo o ser humano menor de 18 anos, salvo se, nos termos da lei que lhe for aplicável, atingir a maioridade mais cedo» (Art. 1.º da CDC). O relatório do estudo referido, tendo em conta que as pessoas na faixa etária entre os 13 e os 17 anos não se revêem na designação de criança, utiliza as designações de «crianças e adolescentes» quando se refere a esta faixa etária.
Pobreza
O estudo fala de pobreza. Alastram os apelos e as campanhas de combate à pobreza, mas os portugueses confrontam-se com o maior agravamento da pobreza desde o regime fascista. A boa-vontade de participar nestes actos não resolve o problema. Os pobres continuam pobres. A caridade nunca pôs fim à pobreza. Há causas cuja compreensão é indispensável para a combater. Políticas e mentalidades assistencialistas não alteram a situação.
O estudo afirma que desde 2008 as crianças e os adolescentes são o grupo etário em maior risco de pobreza em Portugal. Os dados apresentados confirmam as análises do PCP às políticas de austeridade levadas a cabo pelos governos nos últimos anos contra os trabalhadores e o povo.
O desemprego, o trabalho precário, os baixos salários, a redução do apoio económico do Estado às famílias e o aumento dos impostos são colocados como causas fundamentais para a situação de pobreza num elevado número de crianças e adolescentes. As políticas responsáveis por esta realidade fá-los viver os dramas da família – a falta de meios de subsistência. Fá-los viver com o estigma ou o rótulo de pobres e sentirem-se diferentes e não iguais a todos os outros. Uma parte das novas gerações está privada de condições básicas para um crescimento e desenvolvimento harmonioso alicerçado na segurança das suas vidas, no seu bem estar físico e psicológico.
O abono de família
Da identificação das causas da situação destacamos as alterações no acesso ao abono de família. Em 2003, com um governo PSD, este deixou de ser universal, passando a depender do rendimento das famílias e de acordo com cinco escalões.
No estudo sublinha-se que esta prestação social registou uma quebra acentuada em 2011. Importa recordar que é em 2010, com um governo PS e no âmbito dos PEC, que são decididas alterações à atribuição do abono de família que levam a que cerca de 650 mil crianças e adolescentes deixem de o receber, cerca de um milhão e 75 mil beneficiários sofram um corte de 25 por cento e mais de 13 mil crianças e jovens com deficiência percam a bonificação do abono de família.
A política contra as famílias continuou e continua. Entre Novembro/2013 e Novembro/2014, com o Governo PSD/CDS-PP, registou-se uma redução na atribuição desta prestação social a mais de 40 mil crianças, e no que se refere aos titulares com bonificação por deficiência, uma redução, neste período, de 2210.
As estatísticas e os estudos contêm métodos de análise que levam a conclusões e solução diferentes. O PCP aponta a solução para esta situação partindo de uma análise de classe e da concepção da política ao serviço dos trabalhadores, das famílias, do povo e dos interesses nacionais – a política patriótica e de esquerda.
Não é possível assegurar os direitos das crianças e adolescentes continuando as medidas de austeridade resultantes do pacto de agressão imposto às famílias portuguesas e a Portugal. Não é por incompetência ou falta de vontade política que sucessivas maiorias na Assembleia da República e respectivos governos impõem a política de direita. Esta é uma imposição do grande capital ao serviço do qual estão os partidos PS, PSD e CDS-PP. Contribuir para a identificação das diferenças da posição política dos partidos é uma grande e exigente tarefa dos comunistas.
Dois momentos confirmam que há diferença e alternativa. Em 15 de Fevereiro de 2013 foi rejeitado (com os votos contra do PSD e do CDS-PP) um projecto-lei do PCP de criação de um Programa Extraordinário de combate à pobreza infantil e de reforço da protecção dos direitos das crianças e jovens. Mais recentemente, o PCP propôs em sede de Orçamento do Estado para 2015, a reposição dos 4.º e 5.º escalões do abono de família, retomando a universalidade desta prestação social, que teve os votos contra do PSD, CDS-PP e PS.
A situação das crianças e adolescentes no nosso País constitui uma afronta à democracia e aos valores de Abril. É imperioso mudar de rumo, só possível com uma política patriótica e de esquerda. A mudança está nas mãos dos trabalhadores e do povo, dando o seu apoio ao PCP e o seu voto à CDU.
1 As crianças e a crise em Portugal – Vozes de Crianças, Políticas Públicas e Indicadores Sociais, 2013 – UNICEF – Comité Português