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Ângelo Alves

Foi há poucos meses que Durão Barroso procedia a um tão mentiroso como ridículo auto-elogio de final de mandato assente na ideia de que ele tinha conseguido conduzir o barco (ou seja a União Europeia) a bom porto pelo meio da tempestade da crise. Referia então que o euro estava sólido. Draghi corroborava, Merkel acenava que sim com a cabeça. Juncker, sucessor de Barroso, afinou pelo mesmo diapasão. Diziam todos que o pior já tinha passado, vinha aí o crescimento. A jóia da coroa, o euro, estava seguro. Portugal e Irlanda eram exemplos de sucesso e na Grécia já se vislumbrava a luz ao fundo do túnel. Foi o tempo de falar da democracia e da «Europa unida», o tempo das eleições para o Parlamento Europeu.

Agora vêm aí eleições legislativas. Começam na Grécia, passarão por Espanha, Irlanda, Portugal, entre vários outros países. Os sistemas políticos de representação burguesa estão a estalar por todos os lados, acompanhando a desconstrução social, a crise económica sem fim à vista, o estalar de escândalos de corrupção e a continuação da abertura de mais fissuras nos pilares da UE. A estagnação económica é reconhecida por Draghi de forma mitigada, afirmando a perspectiva de «crescimento anémico». A deflação é já uma certeza. O BCE prepara-se para comprar lixo tóxico. O euro, o tal que estava seguro, atinge esta semana o seu valor mais baixo dos últimos nove anos face ao dólar. Afinal a crise está aí como sempre afirmámos. O inefável Schauble já disse aos gregos: não há alternativa, a austeridade e as «reformas» são o caminho e se o povo se atreve a decidir por sua cabeça, asfixia-se financeiramente a Grécia. Merkel e Barroso vão mesmo mais longe, se o povo grego não votar como desejam, são expulsos do euro.

Mais do que discursos ditatoriais, mais do que absurdas ingerências, mais do que um reconhecimento público de que para eles a democracia é uma batata, a postura dos que se acham «donos disto tudo» é no fundo uma expressão bem viva da profundíssima crise na e da UE. Bem como do euro, a fissura maior no casco de um barco que já parece à deriva. É altura da tripulação assumir o leme, destituir os oficiais, e rumar a porto seguro. As eleições são importantes, mas a luta vai ser determinante.




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