Erdogan sem travão
Jornalistas, guionistas, produtores e o presidente de um grupo de comunicação social foram presos, durante o fim-de-semana na Turquia, numa vaga repressiva ordenada e defendida pelo presidente, Recep Erdogan.
O processo não é próprio de uma democracia
Entre os 24 encarcerados entre sábado e domingo, de um total de mais de 50 visados por mandatos judiciais, estão ex-chefes da polícia, incluindo o deposto responsável pelas operações antiterroristas em Istambul, o chefe de redacção do diário Zaman, Ekrem Dumanli, e Hayrettin Karaca, executivo do grupo de media «Samanyolu», que entre outros títulos inclui um canal de televisão. Ambos consideraram, no momento das respectivas detenções, estar a ser colocada em causa a «liberdade de imprensa». Karaca afirmou mesmo que «as democracias têm um preço. Se este é o preço, então estamos dispostos a pagar, pelo nosso povo.»
Todos e mais os jornalistas, guionistas e produtores de séries televisivas e programas de entretenimento entretanto encarcerados ou alvo de mandatos de captura, são acusados de fazerem parte de uma conspiração terrorista para derrubar o presidente turco. Cabala cujo epicentro organizativo e fonte de inspiração será o movimento liderado pelo clérigo Fatah Gullën, advoga Erdogan.
A operação, informou por seu lado o jornal Hurriyet, citado pela Lusa, prossegue em 13 províncias e deverá resultar em mais prisões, facto que está a provocar a contestação e o repúdio no país, desde logo manifestados por populares, no domingo, junto à Direcção-Geral de Segurança na capital, Ancara.
«O processo a que estamos a assistir não é próprio de uma democracia. Isto é um golpe de Estado. Estamos solidários com os oprimidos», disse à France Press, o líder do Partido Republicano Popular.
O lançamento de uma nova vaga repressiva por parte do governo do Partido da Justiça e Desenvolvimento (AKP) vinha sendo denunciado nas redes sociais desde quinta-feira, 11. Justamente nessa noite, centenas de pessoas protestaram em Istambul frente aos edifícios das forças de segurança e do diário Zaman. Um dia depois, o presidente da Associação de Jornalistas Progressistas da Turquia caucionou a seriedade da ameaça e alertou que «o país está a dirigir-se para um regime totalitário sob o poder de Erdogan e do AKP».
«Hoje perseguem o movimento Gullën que foi um forte aliado até há pouco tempo. Mas a vítima desta luta são as liberdades e, em particular, a liberdade de imprensa», denunciou Ahmet Abakay.
A UE considerou que a operação visando órgãos de comunicação social turcos fere «valores europeus» e os EUA apelaram ao respeito pelos «valores fundamentais», mas Erdogan reagiu com violência verbal e aconselhou Bruxelas a «meter-se na sua vida», confirmando que o presidente turco está cada vez mais instável, mesmo para o imperialismo.