Ilusões ou alternativa?

João Oliveira (Membro da Comissão Política do PCP)

A crise em que o País está mergulhado, incluindo a corrupção, não é obra do acaso, é o resultado da política de direita. Os exemplos do BPN, do BPP e do BES/GES, a condenação do ex-presidente do grupo parlamentar do PSD, Duarte Lima, ou os casos de corrupção envolvendo figuras com elevadas responsabilidades na estrutura do Estado não estão desligados das políticas que entregaram o País e a economia nacional a um punhado de interesses económicos e financeiros.

O PCP fala verdade e respeita os compromissos assumidos com o povo

Actuando no quadro de leis criadas à sua medida, ou à margem delas quando necessário, os grupos monopolistas têm visto atingidos os objectivos que inscreveram nos «cadernos de encargos» apresentados a sucessivos governos de PS, PSD e CDS. As privatizações, as PPP, a livre circulação de capitais, a utilização da dívida pública para a especulação, os benefícios fiscais concedidos aos grupos económicos, a criação dos vistos «gold» ou o despejar de milhares de milhões de euros de dinheiros públicos em buracos da banca são alguns exemplos de opções políticas que têm servido os grupos económicos e financeiros que parasitam o Estado, os recursos nacionais e a riqueza criada pelos trabalhadores.

Esta política de benefício aos grupos económicos e financeiros não se tem feito sem sacrifícios nem prejudicados.

O agravamento da exploração dos trabalhadores, a liquidação de direitos laborais e sociais, o agravamento da pobreza, a falência de milhares de PME, a emigração ou até o regresso da fome ao dia-a-dia de muitas famílias portuguesas são o preço elevado que a imensa maioria dos portugueses paga pela política de favorecimento do grande capital.

É o próprio País que se afunda à medida que cresce o domínio do grande capital. E a política dos PEC e da troika comprova que os grupos monopolistas não desistem dos seus objectivos, nem que isso custe a ruína do povo e do País.

Manobras de ilusão

Perante a crescente rejeição popular do Governo PSD/CDS e a constatação óbvia da derrota dos seus protagonistas, aceleram-se as manobras de ilusão que visam transformar o descontentamento com este Governo em salvação da mesma política.

O Congresso do PS insere-se nessas manobras.

Integrado num processo em que se inventa uma viragem do PS à esquerda, o congresso confirmou-se como um momento de venda de ilusões, ocultação de compromissos e branqueamento de responsabilidades, incluindo o passado mais recente de compromisso com os PEC e da assinatura do pacto de agressão. Tudo embrulhado num discurso pretensamente de esquerda sem correspondência em compromissos políticos concretos.

Foram referidas muitas das chagas sociais presentes nas vidas dos portugueses, com a aparência de uma forte carga emocional mas sem uma nesga de arrependimento pelas medidas dos próprios governos PS que estão na sua origem. O abono de família cortado a 600 mil crianças pelo governo PS/Sócrates é apenas o exemplo mais flagrante.

Não houve um único compromisso de ruptura com a política de direita e defesa de uma política alternativa em questões centrais como a renegociação da dívida, a devolução de salários e pensões, a política de privatizações ou a submissão às imposições da UE, do euro e do Tratado Orçamental. Até a reposição de direitos laborais foi deixada em suspenso e empurrada para a concertação social.

E o que de concreto se avançou é mau demais.

Afirmar outro caminho

Para lá do apelo a um acordo estratégico com todas as forças políticas e sociais – um alargamento dos pactos entre PS, PSD, CDS, patrões e UGT? – fica o discurso da pretensa abertura à esquerda feito na base da ameaça, da chantagem e do ataque sectário àqueles com quem o PS diz querer entender-se mas que acusa de se limitarem ao protesto. Convenhamos que, para início de conversa, menosprezar a luta dos trabalhadores e do povo qualificando-a de protesto, ignorando ao mesmo tempo as soluções apresentadas pelo PCP para os problemas nacionais, será no mínimo desconversar…

E percebe-se que o PS desconversa porque não quer conversar a sério sobre as soluções para os problemas do País, quer apenas dar ares de esquerda para ganhar hoje a confiança que há-de trair amanhã, continuando a política que hoje critica ao Governo PSD/CDS por mera conveniência táctica e eleitoral.

O caminho tem de ser outro e o PCP persistirá nele.

Derrotar o Governo mas sobretudo romper com a política de direita. Falar verdade e respeitar os compromissos com o povo e os trabalhadores, defendendo a política alternativa, patriótica e de esquerda que dá solução aos graves problemas nacionais. Reforçar o PCP e a CDU e fazer convergir todos os democratas e patriotas na construção da alternativa política que corresponda a essa política alternativa.

 



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