Atracção fatal

Jorge Cordeiro

A julgar pelo que por aí se lê e ouve, estará em marcha – pela mão do Livre, aditando uns quantos ex-membros de alguma coisa e outros tantos viajantes errantes – a constituição do que se designa por uma «plataforma de esquerda». Registe-se a premonitória e assertiva designação para a coisa. Atendidos que sejam os objectivos destes e o percurso dos que há duas décadas sob a mesma designação iniciaram um caminho que os conduziu ao regaço do PS, só se pode concluir que a dita designação faz bater a bota com a perdigota. Felicite-se pois a clareza de propósitos. Compreende-se melhor, hoje, a saudação que o novo líder do PS dirigiu aos que «à sua esquerda» rompiam com o que designou de «sectarismo anti-PS». Perante a oferta que alguns se aprestam para conceder, pondo-se a jeito para serem parte da operação que o PS há muito cultiva para ocultar que o único e o verdadeiro sectarismo existente no campo democrático é precisamente aquele que a partir do PS tem fixado o seu posicionamento e opções sempre do lado da política de direita, não restaria a Costa outra atitude que não fosse saudá-los. Não é caso para menos. Sem esforço por aí além, o PS encontra o álibi ideal para justificar o seu contínuo e prolongado percurso no terreno da política de direita. António Costa reafirmou este sábado que o PS assume a história toda. Só lhe fica bem a franqueza. Assim se fica a saber donde vem e o que dali há a esperar olhando para a história do PS: uma história recheada de alianças com PSD e CDS, de colaboracionismo nas revisões constitucionais para liquidar direitos e conquistas de Abril, de acção precursora nas privatizações, de entusiástica submissão à União Europeia e ao euro, de concretização dos PEC e de entrega do País à gula dos mercados e da troika. Não se venha acusar o PCP de sectarismo. O que aqui fica escrito está bem aquém da clareza de Francisco Assis quanto à «proximidade ideológica de PS e PSD» e a «impossibilidade de soluções governativas à esquerda». O PCP não é nem nunca foi obstáculo à necessária convergência à esquerda. O obstáculo, esse sim, tem residido na irreprimível atracção do PS pela direita e na recusa de abandonar o terreno em que germina essa mesma política.




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