Pandora

Henrique Custódio

A «caixa de Pandora» foi aberta na Lusitânia e soltaram-se os demónios, multiplicando-se em tenebrosa escalada e dimensão. Nestes últimos dias acumularam-se os casos do BES, o da «reposição» das reformas vitalícias pretendida por PSD e PS e no dia seguinte retirada, o dos «vistos gold» e o da detenção de José Sócrates.

O Governo Passos/Portas quis impor um «novo praradigma» no País a coberto das exigências da troika, utilizou para esse objectivo todas as ilicitudes inconstitucionais, golpeou profundamente o regime democrático degradando a generalidade das funções sociais do Estado, a única «reforma» produzida foi a destruição do Código do Trabalho e dos direitos dos trabalhadores, esmagou as pessoas no activo e os reformados com uma cobrança de impostos que é um confisco, enquanto as «rendas» e as PPP esbulham milhares de milhões de euros todos os anos em contratos leoninos com bancos e grandes empresas e ignorou olimpicamente os protestos maciços que foram crescendo pelo País, mobilizando muitas centenas de milhares de pessoas em largas dezenas de manifestações, criando um pano de fundo de impunidade política protegida pelo Presidente da República, e de desprezo pela legalidade democrática que o Governo instituiu como um hábito.

Só que tudo tem um preço ou, no mínimo, consequências. E este desprezo plenipotenciário pelo País e pelo povo, exibido pelo Governo durante mais de três anos e em crescendo, degradou as instituições e o seu prestígio muito para além do tolerável. E na proporção directa em que o Governo liquidou a confiança no Estado como «pessoa de bem» – os exemplos são múltiplos, desde a transformação do Fisco em máquina de confisco, à degenerescência do Estado numa entidade que esbulha tudo a quem trabalha ou está reformado, ao ponto de já ninguém saber quanto vai receber de salário ou pensão no mês seguinte.

Ultrapassou-se o extremo da arrogância com tão insensato desprezo pelos interesses e sensibilidade social do País, porque ao contrário do raciocínio tosco de Ulrich, o povo não «aguenta, aguenta» indefinidamente...

Sobretudo quando desabam sobre o País, e sucessivamente, a falência dum banco com a importância do BES – com consequências na economia ainda por aquilatar –, a corrupção dos «vistos gold», cujo autor da ideia foi Paulo Portas e implicando dirigentes de topo da administração do Estado, incluindo chefias do SEF, do Instituto dos Registos e Notariado e Ministério da Justiça e, no final da semana passada, a detenção de José Sócrates no aeroporto acusado de fraude, burla e lavagem de dinheiro.

Tudo isto fez recuar repentinamente a escandalosa decisão tomada por PSD e PS de repor as «reformas vitalícias» dos deputados com duas legislaturas no activo.

Já não há volta a dar: com tanto escândalo sucessivo e concentrado, abriram a «caixa de Pandora» e ninguém sabe o que isto vai dar.

 



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