A cavacal figura quebrou o silêncio

Aurélio Santos

Cavaco Silva que cada vez mais se vem fingindo de morto, foi obrigado a quebrar o voto de silêncio nas comemorações do dia 5 de Outubro.

O seu discurso foi do género «vamos esperar que vocês sejam muito, muito burros e acreditem na minha conversa».

A iminência parda que «nunca erra e raramente se engana» mostrou-se muito preocupada com o risco de implosão do sistema político partidário de que ele é, ironicamente, um dos principais responsáveis.

O que foi minando cada vez mais a democracia em Portugal foram as negociatas que pautaram a governação nas três últimas décadas e que tiveram como única preocupação favorecer os amigos, proteger e ajudar o grande capital à custa do Estado e dos cidadãos. O que minou a democracia foi a mentira, o engano deliberado.

O flagelo das PPP rodoviárias, que hoje pagamos muito caro, foi iniciado pelo então primeiro-ministro Cavaco Silva com o desastroso negócio da Ponte Vasco da Gama.

Foi Cavaco que iniciou o processo das privatizações alegando que o Estado é mau gestor. Está à vista o «brilhantismo» da gestão privada no BCP, BANIF, no BES, na PT, no BPN. Este último gerido por homens da confiança de Cavaco e destacados militantes do PSD.

Foi Cavaco que assinou o tratado que impede os estados de se financiarem no BCE deixando-os à mercê dos sacrossantos «mercados».

O que preocupa Cavaco Silva não é a implosão do sistema político partidário, mas a implosão do seu próprio partido.

O acordo de regime que Cavaco reclama desesperadamente evitaria por um lado que isso acontecesse e amarraria os portugueses à política de direita.

Mas o truque não pega porque estamos hoje de olhos abertos.

O regime garante-se com mais democracia e não com menos.

O senhor Presidente da República confundiu o remédio com a doença.

Regimes democráticos sem democracia não têm futuro.




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