Pirómanos

Jorge Cadima

O im­pe­ri­a­lismo con­tinua a atear fogo ao pla­neta

Há quase um mês, Obama anun­ciou ata­ques aé­reos no Iraque e Síria, ale­ga­da­mente para «atacar alvos do ISIL», o mo­vi­mento ter­ro­rista também co­nhe­cido pela sigla ISIS. O saldo é re­la­tado pelo jor­na­lista P. Cock­burn no In­de­pen­dent (12.10.14): «Os jiha­distas estão prestes a tomar [a ci­dade de] Ko­bani, na Síria, e a parte oci­dental de Bag­dade está em sério pe­rigo». E acres­centa: «Numa ofen­siva [...] de­sen­ca­deada a 2 de Ou­tubro, mas pouco no­ti­ciada no resto do mundo, o ISIS cap­turou quase todas as ci­dades e vilas que ainda não con­tro­lava na pro­víncia de Anbar, uma vasta re­gião do Iraque oci­dental que cobre quase um quarto do país». No vi­zinho Lí­bano os jiha­distas do ISIL ata­caram a im­por­tante ci­dade de Ba­al­beck (In­de­pen­dent, 6.10.14). Tudo isto, apesar dos bom­bar­de­a­mentos norte-ame­ri­canos (com nu­me­rosas ví­timas civis) e do re­gresso ao Iraque de 1600 sol­dados dos EUA e «de­zenas de sol­dados das forças es­pe­ciais» do Ca­nadá (Al Ja­zeera, 3.10.14). Pouco ad­mira que «no Iraque, [haja] pro­fundas sus­peitas de que a CIA e o Es­tado Is­lâ­mico estão unidos», como ti­tu­lava um ar­tigo no New York Times (20.9.14).

Se dú­vidas hou­vesse sobre as ori­gens do ISIL, o vice-pre­si­dente dos EUA Jo­seph Biden, trouxe uma con­fissão de peso ao falar na Uni­ver­si­dade de Har­vard a 2 de Ou­tubro: «Os nossos ali­ados da re­gião têm sido o nosso maior pro­blema na Síria. Os turcos [… e] os sau­ditas, os dos Emi­rados, etc. [...] Es­tavam tão de­ci­didos a abater Assad […] que des­pe­jaram cen­tenas de mi­lhões de dó­lares e de­zenas de to­ne­ladas de armas nas mãos de quem quer que lu­tasse contra Assad – só que as pes­soas que es­tavam a ser abas­te­cidas eram a [Frente] al-Nusra, e a Al-Qaeda, e os ele­mentos ex­tre­mistas do jiha­dismo que vi­nham de todas as partes do mundo. Pensam que estou a exa­gerar? Olhem bem. Onde foi tudo isto parar? [...] esta or­ga­ni­zação cha­mada ISIL, que era a Al-Qaeda no Iraque, quando foi ex­pulsa do Iraque en­con­trou es­paço e ter­ri­tório aberto na Síria ori­ental […]. E nós não con­se­guimos con­vencer os nossos ali­ados a parar de os abas­tecer» (Washington Post, 6.10.14). A con­fissão de Biden, que o Washington Post con­si­dera «sur­pre­en­dente», não pelo seu con­teúdo, mas por «ter sido ex­pressa em pú­blico», é duma falsa ino­cência. Biden culpa os ser­ven­tuá­rios. Mas é pre­ciso muita in­ge­nui­dade para acre­ditar que a todo-po­de­rosa su­per­po­tência mun­dial, sempre pronta a cas­tigar re­cal­ci­trantes países ou di­ri­gentes em qual­quer parte do globo, «não con­se­guia con­vencer» os seus ali­ados. A re­a­li­dade – que o pla­neta in­teiro co­nhece bem – é que desde há três anos os EUA e as po­tên­cias im­pe­ri­a­listas eu­ro­peias – e não só os seus ali­ados da re­gião – estão em­pe­nhados em fi­nan­ciar e armar o jiha­dismo para abater Assad. Cri­aram o ISIL, tal como cri­aram Bin Laden. Agora mos­tram-nos ví­deos de ci­da­dãos oci­den­tais de­ca­pi­tados. Mas du­rante anos ig­no­raram todos os ví­deos que os pró­prios «re­beldes» co­lo­cavam na In­ternet, van­glo­ri­ando-se de de­ca­pitar sol­dados, civis, pa­dres cris­tãos. Pior: a BBC (5.7.13) deu-se ao tra­balho de en­tre­vistar um «re­belde» que pôs na In­ternet o vídeo em que, não con­tente com es­folar vivo um sol­dado sírio, comia os seus ór­gãos. E até ar­ranjou mo­tivos para «com­pre­ender» o ca­ni­ba­lismo. A culpa, claro, era de Assad.

É in­tei­ra­mente le­gí­tima a sus­peita de se estar pe­rante uma ma­nobra que, longe de querer com­bater o ISIL, visa elevar o pa­tamar de in­ter­venção im­pe­ri­a­lista. O In­de­pen­dent (12.10.14) le­vanta uma ponta do véu (de novo apon­tando o dedo a ou­tros): «A Tur­quia está a exigir [...] uma zona tampão […], dentro da Síria, onde vi­ve­riam re­fu­gi­ados sí­rios e se­riam trei­nados os re­beldes anti-Assad. O Sr. Er­dogan quer uma zona de in­ter­dição aérea que também seria di­ri­gida contra o go­verno de Da­masco, uma vez que o ISIL não tem força aérea. Se con­cre­ti­zado, este plano sig­ni­fi­caria que a Tur­quia en­traria na guerra civil síria, ao lado dos re­beldes». Os pre­textos vão va­ri­ando e tornam-se cada vez mais de­li­rantes. Mas o im­pe­ri­a­lismo con­tinua a atear fogo ao pla­neta, no seu afã de do­mi­nação.




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