A descrença
É próprio das coisas terem dentro de si a sua própria negação. Não porque cada coisa tenha o seu lado bom e o seu lado mau – como se o mundo fosse um gigantesco BES das estórias da carochinha da dupla Coelho/Portas – mas porque cada coisa existe enquanto realidade contraditória e em movimento.
Assim é com a descrença que se abate sobre o povo português. Uma descrença que nós, os que acreditamos, tendemos a combater, às vezes sem perceber que aquilo em que nós acreditamos é o radical oposto daquilo em que o povo começar a descrer.
O povo começa a descrer dos «políticos», e nós, que fazemos da política uma prática altruísta e nobre, tendemos a combater essa descrença. Mas de que «políticos» descrê o nosso povo? Dos burlões que há 38 anos lhe sacam procurações para ocupar o poder e executar uma política oposta aos interesses populares. Daqueles que se combatem ferozmente em público e assinam pactos em privado. Desses é caso para dizer que ainda descrê insuficientemente, pois muitos, mesmo que já não tantos, preparam-se para voltar a cair nas armadilhas das alternâncias, dos votos úteis, dos cantos de sereia.
O povo começa a descrer da «democracia», e nós, que estamos no Partido onde se deu a vida pela conquista da democracia, tendemos a combater essa descrença. Mas de que «democracia» descrê o nosso povo? Daquela em que tantos vivem, de que só podendo votar em PS, PSD e CDS, ganhe quem ganhe tudo fica na mesma, ou seja, tudo continua a ficar pior. E daquela em que todos vivemos, onde o poder político está refém do poder económico. Mas essa não é a democracia por que lutámos e lutamos – e também é preciso deixar de acreditar em alternâncias para partir à construção da alternativa.
Em torno da própria descrença trava-se uma luta. Entre os que a querem utilizar como arma de dominação – fazendo da descrença mecanismo de submissão e controlo, ou prosseguindo a alienação até semear convicções anti-democráticas – e os que a podem utilizar como arma de libertação, de emancipação, de um povo que deixa de acreditar nas inevitabilidades que lhe são impostas e toma o seu futuro nas suas próprias mãos.
Entre perigos e potencialidades, o caminho é a luta.