15 minutos

Margarida Botelho

«Se as consultas demorassem só 15 minutos, não havia falta de médicos de família», titulava o Público na semana passada. Quase que apetece dizer que se não houvesse utentes também não faltavam médicos e se não houvesse portugueses até escusavam os senhores de se incomodar a fazer estas contas tontas de sumir.

A notícia vem a propósito de uma auditoria aos serviços de saúde realizada pelo Tribunal de Contas e divulgada na semana passada, que conclui que bastaria reduzir o tempo médio das consultas nos centros de saúde dos actuais 21 para 15 minutos para se conseguirem fazer mais 10 milhões de consultas.

É óbvio que estas são contas que não se baseiam na realidade. Quantas vezes não acontece a maior parte do tempo das consultas ser gasto com o médico a debater-se com a dramática falta de meios materiais e humanos dos centros de saúde – seja um computador que funcione, pilhas no aparelho de medir a tensão ou aceder ao processo do utente? E em quantos centros de saúde do nosso País, nomeadamente os transformados em Unidades de Saúde Familiares, é que as consultas já são marcadas a intervalos de 10 minutos? Aliás, com o sucesso expectável: em muitos casos, 10 minutos não dá nem para utentes mais frágeis, como as crianças ou os idosos, explicarem ao que vão.

A auditoria do Tribunal de Contas contém, no entanto, alguns elementos de diagnóstico da situação da saúde em Portugal que importa reter: em 2012, um quarto dos portugueses não tinha médico de família – e dois anos de política das troikas depois, a proporção só há-de ter piorado; a falta de outros profissionais nos cuidados de saúde primários (enfermeiros, administrativos, outros profissionais de saúde) deixa ainda menos tempo aos médicos para exercerem o seu papel; a decisão de eliminar das listas de utentes todos os que não contactem o centro de saúde no prazo de três anos revelou-se desadequada.

São constatações óbvias, que qualquer utente do Serviço Nacional de Saúde está em condições de fazer, mas que têm o crédito de trazer a chancela da auditoria. Acrescente-se-lhe uma política de pessoal desastrosa, cortando salários e destruindo carreiras, empurrando os mais velhos para a reforma e impedindo a fixação e formação de jovens, e fica o quadro completo. Mantendo a mesma política, mais dia menos dia chegará novo estudo a propor reduzir as consultas para três minutos por década para cada português.




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