Trabalhadores descartáveis
LUSA
Num comunicado conjunto da Direcção da Organização Regional de Viseu e da célula da PSA Peugeot/Citröen (reproduzido e difundido pelo Gabinete de Imprensa), emitido no dia 27, o PCP exige a anulação do despedimento dos 280 trabalhadores que laboravam no terceiro turno do Centro de Produção de Mangualde da PSA, que cumpriram o último dia de trabalho na fábrica no final da semana passada. A administração justifica este despedimento colectivo «imoral, inaceitável e ilegítimo» com o «encerramento do referido turno para “ajustamento da actividade produtiva”», adianta o PCP.
Se cabe à empresa a responsabilidade por enviar quase 300 pessoas para o desemprego, ela não é a única culpada, garante o Partido: «à sombra das alterações de “flexibilização” da legislação laboral, introduzidas sucessivamente pelos governos PS e PSD/CDS e pela convergência destas forças políticas na Assembleia da República, a PSA de Mangualde tem vindo a agravar e refinar as medidas contra os direitos dos trabalhadores e de crescente exploração.»
De facto, lembra o PCP, a empresa recorre regularmente ao «lay off» e à «bolsa de horas» que, a partir deste despedimento, «irá de novo implementar aos sábados e feriados, com alargamento do horário de trabalho pago a singelo, negando os suplementos a que os trabalhadores têm direito pelo trabalho extraordinário». Ao mesmo tempo, acrescenta-se no comunicado, a PSA continua a aliciar os trabalhadores efectivos para que rescindam os seus contratos, «para depois os voltar a contratar através da sua empresa de aluguer de mão-de-obra, com salários de miséria e sem os direitos que o Contrato Colectivo de Trabalho garante».
A degradação dos direitos é acompanhada pela desvalorização dos salários, acusa o PCP: o seu valor médios desceu, em certos casos, para cerca de metade. Já os lucros «permanecem elevados», registando mesmo um «crescimento substancial, potenciado pela laboração do terceiro turno», como chegou a reconhecer a própria administração.
Esta é, para o PCP, uma situação intolerável, tanto mais que a multinacional «tem recebido avultados apoios do Estado português e da União Europeia»: só durante o governo do PS/Sócrates, a PSA recebeu cerca de 30 milhões de euros. O Partido acusa o Governo do PSD/CDS de, à semelhança de outros, «fechar os olhos» perante este brutal despedimento e de «ser conivente com a instrumentalização imoral e desumana dos trabalhadores pelos desígnios das multinacionais e dos interesses financeiros».