Um retrato a negro

Aurélio Santos

Decorreu há alguns dias na AR o debate sobre o Estado da Nação. Passos Coelho não se poupou a elogios à sua própria governação. O «salvador da pátria» falou do défice, dos mercados, da troika, da balança comercial mas quase nada disse sobre as pessoas.

Bizarra concepção de Nação onde não existem pessoas ou, pior do que isso, onde elas são ignoradas.

Afirmou o primeiro-ministro: cumprimos as metas a que nos propusemos. De que metas falaria?

Aqui ficam algumas das «metas» alcançadas por este Governo:

Mais de 2 milhões de pobres, 736 mil desempregados, (n.ºs oficiais) 300 mil desencorajados, 160 mil obrigados a assinar contratos em que recebem 200 euros de salário. 64% dos desempregados são desempregados de longa duração e 412 mil desempregados não recebem subsídio de desemprego.

440 mil postos de trabalho destruídos e só em 2013 foram à falência 18 800 empresas.

Meio milhão de salários e 181 mil reformas penhoradas porque as pessoas não conseguem cumprir os compromissos. 150 mil famílias perderam a casa, 300 mil viram a electricidade cortada e 12 mil a água.

Foram cortados 40 mil abonos de família, 60 mil complementos solidários para idosos (30%) e 305 mil rendimentos de inserção social (60%).

Emigraram mais de 250 mil jovens, só no último ano emigraram 30 mil enfermeiros.

Mais de 2000 milhões de euros ano foram transferidos do rendimento do trabalho para o rendimento do capital com este Governo.

Se a estes números juntarmos declarações que todos os dias nos chegam na comunicação social: «o maior problema que nos chega às urgências é a fome» – urgências de Aveiro (20.5.2014). «As misericórdias evitaram que a fome se generalizasse» (28.5.2014), percebemos que o retrato real deste País é negro.

Serão estas as metas que Passos Coelho queria atingir? São estas as metas de que tanto se vangloria?

Sofhia de Mello Breyner, homenageada nesse mesmo dia, no conto O jantar do Bispo fala-nos «de certos titulares de cargos públicos que nunca podem ouvir nem falar de pessoas comuns, as suas conversas são reservadas a coisas e pessoas importantes».

Será por certo por isso que o primeiro-ministro não falou destes números!

Era também Sofhia que dizia «em vez de dizerem aos pobres: tenham paciência não pode ser é preciso dizer-lhes: Não tenham paciência».




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