Espíritos

Henrique Custódio

O chamado «escândalo do BES» ou do «Grupo Espírito Santo» começou por arregimentar as notícias à volta de uma exclusiva abordagem: a da «luta pelo poder na Família Espírito Santo».

O prato foi condimentado e a gosto.

Nos temperos houve o Requinte da Espécie (Espírito Santo), que remonta parece que ao século XIX, quando uns pequenos comerciantes com olho para o negócio foram de chafarica em chafarica até à constituição de um banco no início do século XX, dali irradiando para o Império através de aquisições, fusões, uniões, refundações, expansões e toda a espécie de ligações ao poder que estivesse (ou esteja) de serviço.

O gosto do prato cuidou ser «o popular», associado ao gosto por histórias de ricos e poderosos organizados em famílias ou dinastias. Daí termos sabido, à saciedade, dos cinco actuais «ramos» da cepa original do Espírito Santo (que não o da Trindade católica, haja tento) a envolverem-se na «luta pelo poder», engalfinhados num folhetim onde avultam dois próceres: Ricardo Salgado, há mais de 20 anos presidente do grupo e do BES, e o seu primo José Maria Ricciardi, 10 anos mais novo e aspirante ao cargo.

Terçaram-se fofocas sobre «os Espírito Santo», os jornais económicos da especialidade até alinharam nessa aparente devassa e, como boa efabulação de cordel, nada se ficou obviamente a saber de cada um dos cinco «ramos», nem dos negócios deles ou da Família, para além dos muitos milhões que cada qual detém e que a telenovela atirou arrogantemente à cara do País, enquanto lamentava a intrusão que «a luta» infligia ao augusto recato do Clã.

Mas, nos últimos desenvolvimentos, Ricardo Salgado acabou apeado do poder e impôs o seu «braço direito», Amílcar Morais Pires, como novo presidente do BES, aguardando-se que os accionistas e o BdP lhe aceitem o alvitre, enquanto o seu primo Ricciardi garantiu ter a maioria, declarou ir dedicar-se à sua carreira na direcção do BESI e afirmou-se desligado de outros negócios do Grupo, o que precipitou a queda acentuada em bolsa dos ditos negócios, estando a guerra para lavar e durar.

Perante o presente descalabro, esperemos que abrande este folhetim até agora servido ao País e se atente nas discretas e outras notícias sobre «o grupo BES», onde Ricardo Salgado surge directamente posto em causa por uma gestão bancária cuja nebulosidade apenas deixou ver que «desapareceram» mais de dois mil milhões de euros nos negócios do Grupo e desembocou na sua remoção do cargo, enquanto o seu primo Ricciardi arrasta arguições desde 2008 (nomeadamente, por abusos e manipulações nos negócios de acções na EDP e EDP Renováveis), o mesmo sucedendo ao putativo novo presidente do BES, Morais Pires, que também está arguido em processos que tais.

Tanta «novela de Família», para continuar sempre encoberto o que é, de facto, importante...

 



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