Mesma receita, mesmos resultados

Filipe Diniz

Não há saída para a crise sem correr com o Governo PSD/CDS. Mas também não haverá saída sem ruptura radical com a política das troikas.

Para o constatar não seria necessária a dura realidade presente. Não foram agora inventadas as receitas do FMI nem é a primeira vez que são aplicadas. A diferença é que são agora tomadas em conjunto com o BCE e a UE e aplicadas num quadro em que o sistema financeiro do capitalismo abrira colossais buracos, e têm como prioridade colocar os estados ao serviço da salvação da grande banca privada. Só entre 2008 e 2011 a Comissão Europeia atribuiu 4500 milhares de milhões de euros de ajuda ao sector financeiro. No mesmo período atribuiu um valor mais de 22 vezes inferior ao estímulo à economia. Estes dados que constam de um estudo de 2013 da Oxfam:

(http://www.oxfam.org/sites/www.oxfam.org/files/bp174-cautionary-tale-austerity-inequality-europe-120913-en_1.pdf), que recorda o que sucedeu nas décadas de 80 e 90 do século passado na América Latina com a aplicação dos «pacotes de ajustamento estrutural» do FMI e do Banco Mundial. A receita era a mesma: cortes na despesa pública, privatizações, desmantelamento da contratação colectiva, gestão da dívida com a prioridade do pagamento aos credores em prejuízo da recuperação social e do desenvolvimento. As promessas, igualmente as mesmas: tais políticas gerariam investimento e crescimento, que por sua vez se repercutiriam no crescimento do emprego e dos salários. E os resultados são também os mesmos. Em meados dos anos 90 muitos países da América Latina tinham visto os rendimentos per capita cair para níveis de 15 anos antes – e em alguns países para níveis de 25 anos antes. Na transição do século a desigualdade de rendimentos no continente era a maior de sempre.

Por que insistem em receitas cujos resultados são o contrário daquilo que prometem? Porque o seu objectivo real é o que efectivamente atingem: é ainda maior exploração e roubo aos trabalhadores e aos povos, é ainda maior concentração do capital e da riqueza nas mãos de um punhado de exploradores.

Correr com o Governo é um passo. Arrumar com esta política é o passo decisivo.




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