Uma certa clientela

João Frazão

O di­rector do Centro Re­gi­onal do Se­gu­rança So­cial de Braga, um rapaz do CDS local, posto lá, in­te­ri­na­mente, porque é da cor, e que agora está a con­correr a um con­curso pú­blico, aberto para o lugar, para que se diga que isto é tudo muito trans­pa­rente, e que tem sido no­tícia pelo seu pendor re­ac­ci­o­nário e anti-sin­dical (ainda há dias di­ri­gentes do Sin­di­cato da Função Pú­blica do Norte foram obri­gados a pedir a in­ter­venção da PSP, uma vez que o ca­va­lheiro im­pediu o acesso aos ser­viços para ac­ti­vi­dade sin­dical), re­solveu, para mais uma ope­ração de charme, ir fazer aten­di­mento ao pú­blico, por umas horas.
De­vi­da­mente acom­pa­nhado pelos mi­cro­fones da im­prensa local, o di­ri­gente da­quela es­tru­tura do Es­tado deu por re­sol­vida a ta­refa com meia dúzia de aten­di­mentos e pôde, com pose de Es­tado, fazer a sua de­cla­ração «urbi et orbi».Nada disto seria digno de re­gisto (gente desta é o que não falta para aí, mon­tada no apa­relho do Es­tado pela cor do cartão que exibem, e usando-o para se pro­mover), não fosse o se­nhor ter-se re­fe­rido, por três vezes, às pes­soas que atendeu como «cli­entes».
Nesta gente, já se sabe, as pa­la­vras têm con­teúdos con­cretos e o ca­va­lheiro não se lhes re­feriu nem como utentes, nem mesmo como con­tri­buintes (que em tempos foram o alvo pre­fe­rido da pro­pa­ganda do seu par­tido, que até se ape­lidou do Par­tido dos Con­tri­buintes).
Ou, para esta gente, em­bru­lhada na cha­mada Re­forma do Es­tado, não vi­esse o des­res­peito pelos tra­ba­lha­dores e o povo que são os utentes dos ser­viços pú­blicos e desde logo da Se­gu­rança So­cial. Não vi­esse a des­truição das fun­ções so­ciais do Es­tado que querem trans­formar em ser­viços, que as es­tru­turas des­con­cen­tradas do Es­tado ainda prestam, mas onde já en­saiam ex­pe­ri­ên­cias de en­trega aos pri­vados, como no caso da en­trega de fun­ções do IEFP a em­presas de tra­balho tem­po­rário. Não vi­esse ainda a ideia de que os con­tri­buintes são cli­entes desses ser­viços, e por eles têm de pagar, como pagam o ser­viço de te­le­fone ou de In­ternet.
E nem nos vale a velha má­xima de que o cli­ente tem sempre razão, pois sa­bendo bem que esta gente serve um certa cli­en­tela, ao ser­viço de quem co­loca todas as suas ha­bi­li­dades, tal cli­en­tela nada tem a ver com os que pre­cisam de re­correr aos ser­viços da Se­gu­rança So­cial.

 



Mais artigos de: Opinião

No dia mundial da criança

No dia mundial da criança, 1 de Junho, muitos dos telejornais abriram com reportagens sobre a pobreza infantil no nosso País. A vice-presidente do Instituto de Apoio à Criança afirmou com todas as letras à Notícias Magazine: «a pobreza infantil está a aumentar de...

Contrariedades

Carlos Moedas, secretário de Estado adjunto do primeiro-ministro, foi dizer a Londres – entre aquele círculo de amigos que explicam a sua presença no Executivo de Passos e Portas – que a «função do Governo não é criar empregos». Não teria...

Solidariedade anti-imperialista

Sob o cínico manto do silenciamento e da premeditada deturpação da realidade levada a cabo pelos grandes meios de comunicação social «ocidentais», prossegue a brutal vaga de perseguição e de repressão contra aqueles que na Ucrânia resistem...

As luzes

Enquanto António José Seguro adia, à outrance, a convocação de um congresso extraordinário para dirimir a liderança do PS, Pedro Passos Coelho entrou num frenesim inaugurativo a pedir meças a João Jardim. Só nos passados sexta e sábado o...

Continuar a luta<br> com mais força

As elei­ções para o Par­la­mento Eu­ropeu, con­fir­maram todos os grandes ob­jec­tivos que o PCP de­fi­nira para a sua par­ti­ci­pação, no quadro da CDU, nestas elei­ções, sempre en­ten­didas como uma im­por­tante ba­talha po­lí­tica.