Um e outro

Anabela Fino

O Presidente da República (PR) reconheceu a semana passada, publicamente, que a política seguida nos últimos três anos criou «situações de injustiças» e que há portugueses a viver em condições «intoleráveis». Mais, disse mesmo que a «equidade e justiça» não foram tidas em conta nas medidas adoptadas pelo Governo.

Confrontado com as declarações de Cavaco Silva, o ministro da presidência Luís Marques Guedes logo declarou – mesmo sem as conhecer na íntegra – que «é evidente que o Governo não pode estar mais de acordo com o senhor Presidente da República» e «é para isso tem trabalhado nos últimos três anos».

Se a lógica não é uma batata, temos assim que o PR reconhece o desastre resultante da política do Governo embora tal facto não o tenha impedido de o apoiar e de promulgar a generalidade das medidas geradoras da situação que agora denuncia.

Se a lógica não é uma batata, temos assim que o Governo – que não pode estar mais de acordo com o senhor Presidente da República – assume ser responsável por criar tais situações de injustiça.

Se a lógica não é uma batata, temos assim que PR e Governo andam há três anos a «trabalhar» conscientes de que estão lançar milhares de portugueses em situações «intoleráveis» sem cuidar de qualquer «equidade e justiça».

Se a lógica não é uma batata, temos assim posta a nu mais uma atamancada tentativa de lançar poeira para os olhos dos portugueses, por esta altura elevados ao estatuto de eleitores, tal o despudor com que o primeiro magistrado do País faz de conta nada ter a ver com o estado a que se chegou e tal a pressa com que o porta-voz do Executivo manifesta a sua concordância com ele na tentativa inábil de fazer crer que o governo do capital se preocupa com a justiça social.

A menos que Presidente e Governo comunguem da ideia de que é preciso fazer pobres para que as almas caridosas lhes possam valer, ou que é preciso espalhar a injustiça para depois atrair as vítimas com a promessa de justiça – o que é revelador do que entendem por democracia – nada do que um e outro possam dizer lhes permitirá sair impunes. Porque mais intolerável do que tudo é esta total falta de respeito por Portugal e pelos portugueses a que é preciso pôr cobro.

 



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