À lombada

Henrique Custódio

Pedro Lomba de­cidiu fazer prova de vida e afirmou que «o Go­verno tenta con­ti­nuar e de­sen­volver o es­pí­rito do 25 de Abril ori­ginal».

O que en­ten­derá o se­cre­tário Lomba por «es­pí­rito do 25 de Abril»? E por es­pí­rito do 25 de Abril «ori­ginal»? Sa­bendo-se que o se­nhor não existia ou an­dava de cu­eiros quando ocorreu o caso, de­pre­ende-se com ra­zoável pro­ba­bi­li­dade de que lado do 25 de Abril o sr. Lomba efec­ti­va­mente está: o dos mesmos que, em pleno pro­cesso re­vo­lu­ci­o­nário, re­cla­mavam contra «os exa­geros» – à falta de co­ragem para se oporem às me­didas re­vo­lu­ci­o­ná­rias –, ar­gu­men­tando de­pois que «o es­pí­rito» do 25 de Abril «es­tava des­vir­tuado» e, fi­nal­mente, que a Re­vo­lução em curso era contra o tal «25 de Abril ori­ginal», apesar de o Pro­grama das Forças Ar­madas ser cla­rís­simo na sua ma­triz de 10 Pontos Pro­gra­má­ticos, que foram sendo pau­la­ti­na­mente cum­pridos ao longo do pro­cesso re­vo­lu­ci­o­nário.

Na ver­dade, o que havia de «ori­ginal» nestes «25 de Abril» de pa­co­tilha era o fas­cismo, li­te­ral­mente dito, que os pro­tes­ta­dores tre­me­bun­davam ao vê-lo der­ru­bado.

É esta a «ori­gi­na­li­dade» que o Lomba con­voca 40 anos de­pois, con­ti­nu­ando a fugir a sete pés de chamar os bois pelos nomes.

Mas este se­cre­tário ad­junto, do também ad­junto mi­nistro Ma­duro (por assim dizer, vão-se ad­jun­tando uns aos ou­tros) não cons­titui no­vi­dade na pro­ce­losa equipa Passos/​Portas. O nú­cleo duro desta ran­chada mer­gulha raízes na bur­guesia sa­la­za­rista e nos va­lores co­lo­niais, her­dando as dores re­van­chistas dos seus mais ve­lhos e pondo-as «a pa­ga­mento» no «Por­tugal novo» e «com outro pa­ra­digma» com que o Go­verno de Passos Co­elho tem vindo sel­va­ti­ca­mente a apu­nhalar o País, aco­ber­tado pelas auto-as­su­midas «exi­gên­cias da troika».

O Go­verno de Passos Co­elho é um gi­gan­tesco em­buste de que a His­tória há-de dar conta.

Ele e a sua tropa fan­danga as­su­miram o poder na con­fluência dra­má­tica da ex­pulsão de Só­crates pelo elei­to­rado, farto que es­tava da sua po­lí­tica de ataque aos tra­ba­lha­dores da Função Pú­blica e aos sis­temas ful­crais das fun­ções so­ciais do Es­tado, em re­gime de­mo­crá­tico – Saúde, En­sino e Se­gu­rança So­cial. Afinal, os fun­da­mentos dos ata­ques ac­tuais. Passos subiu ao poder mon­tado numa es­que­lé­tica vi­tória e su­fra­gado por um con­junto de pro­messas que não tinha a mí­nima in­tenção de cum­prir.

Os des­pau­té­rios e as puras im­be­ci­li­dades têm abun­dan­te­mente sur­gido no «acto go­ver­na­tivo» desta gente, desde o pri­meiro-mi­nistro ao seu «vice» e pas­sando pelo resto da banda. O Lomba, após vá­rios actos hi­la­ri­antes (os bri­e­fings que eram diá­rios e se su­miram ver­ti­gi­no­sa­mente por entre os seus pró­prios dedos), ar­riscou dar uma de ideó­logo e de­cretou que o Go­verno está a con­ti­nuar e a de­sen­volver o «es­pí­rito do 25 de Abril ori­ginal».

O País já sabia. Sig­ni­fica fas­cismo. E a des­co­berta do Lomba pode dar-lhe uma Lom­bada.

 



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