O bloco de Assis
Assis faz jus àquele inconfundível culto do PS que, sob a aparente apetência por afirmar algo e o seu contrário, acaba sempre por ficar virado para o lado que se sabe. Um género do «para quê a pressa» quando se trata de mexer um dedo para fazer frente à política de direita e é «o vê se te avias» quando se trata de lhe dar o braço.
É a esta luz que deve ser entendida a repetida afirmação de Assis segundo a qual «o bloco estruturante da esquerda é o PS» complementada pela cirúrgica prevenção, não vá o diabo tecê-las, de «aberto naturalmente à sua esquerda e à direita». Não se recomenda a qualquer leitor, por experimentado que seja, que tente acompanhar a labiríntica narrativa entre direita, esquerda e direita sob pena de se perder, estontear ou ficar sem Norte. Tanto mais que, sendo esse o efeito em quem se esforçar por o fazer, em Assis dúvidas não lhe restarão para onde está virado. Bastará examinar o que nos últimos dias produziu de posicionamento político para se perceber que, ao contrário de qualquer tendência bipolar que apressadamente se seria levado a concluir, o que ali mora é uma irreprimível tendência para a direita. O Assis que numa linha verbera de radical o actual Governo, lá confessa na linha seguinte que «entendimento com o Governo talvez depois das eleições»; o Assis que apelida de «extremista» a actual maioria, apressa-se a esclarecer que «há uma maioria que tem todas as condições para governar»; o mesmo Assis que, na porfiada procura de diferenças para com Rangel, proclama com notável convicção que o outro «é mais federalista, porque eu sou mais mitigado», rejubila com a descoberta distintiva a que chegou, só superável em profundidade com a espontaneidade com que em recente debate televisivo não conteve um «não me dá lições porque sou tão anti-comunista nesse sentido como o Paulo Rangel»; ou ainda aquela imensa e arrasadora diferença para com o PSD e CDS descoberta por Assis de que «temos de aceitar a austeridade que nos estava a ser imposta, mas não ir mais longe que isso». Aqui chegados, poupando os leitores e o seu tempo, sempre se acrescentará que nem seria necessário chegar a temas como o Tratado Orçamental, a União Bancaria ou o Pacto de Agressão para se perceber o que dali vem.