Cortes de água em Espanha aumentam 30%

O número de cortes de água efectuados em Espanha aumentou cerca de 30 por cento no último ano, em resultado da crise económica e da acentuada subida de preços decorrente da privatização deste serviço essencial.

Segundo estimativas da Associação Espanhola de Operadores Públicos de Abastecimento e Saneamento (AEOPAS), citados dia 22 pelo jornal Publico.es, em 2013 foram emitidos cerca de meio milhão de avisos de corte de abastecimento, dos quais 300 mil foram efectivados.

A Associação nota que se trata de números aproximados, dado não existirem dados oficiais coligidos, uma vez que em grande parte o abastecimento de água é da competência de cada município.

No entanto, a entidade afirma que só em Madrid são efectuados entre quatro mil e cinco mil cortes por mês. Em Málaga, em cada dia, 19 famílias ficam com as torneiras secas e o mesmo se repete nos quase oito mil municípios do país.

A somar ao desemprego elevadíssimo, as dificuldades em pagar a factura da água foram agravadas pela subida dos preços, hoje 25,5 por cento mais caros em média do que há cinco anos.

Um estudo da associação de consumidores FACUA revela que o preço médio da água em Espanha ronda os 1,7 euros por metro cúbico, mas as diferenças das tarifas podem atingir 333 por cento, consoante as regiões. Por exemplo, um consumo mensal de dez metros cúbicos em Múrcia custa 28,87 euros, valor que baixa para 10,53 euros em Valladolid.

Por trás do aumento dos preços está o avanço acelerado dos processos de privatização, cujos custos não tardam a reflectir-se sobre os utentes.

Em finais de 2013, de acordo com estimativas da AEOPAS, cerca de 57 por cento da população em Espanha já era abastecida por concessionários privados, que tratam de assegurar por todos os meios a rentabilidade do negócio.

Assim, enquanto aumenta o universo de excluídos hídricos, a Agbar, uma das maiores empresas do sector, que juntamente com a Aqualia controla 80 por cento do negócio da água, teve lucros de 432,2 milhões de euros em 2011.

O alastramento da pobreza hídrica em Espanha já foi reconhecido pela própria Comissão Europeia que veio defender a garantia de um abastecimento mínimo de água a todos os cidadãos.

Embora a água seja um direito humano reconhecido pela ONU, são muitas as situações em que só existe no papel. Em compensação, vários municípios espanhóis têm vindo a tomar medidas para assegurar o abastecimento às famílias que não podem pagar as facturas.

É o caso de meia centena de localidades de Huelva e de El Prat em Barcelona. Também o município de Sevilha introduziu tarifas diferenciadas consoante o número dos agregados familiares.

A Rede de Agua Pública espanhola manifesta-se contra a mercantilização da água, denuncia a opacidade dos processos de privatização e a conivência de responsáveis políticos, que permitem a transformação deste recurso num negócio lucrativo de alguns grupos privados.




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