Aterros

Anabela Fino

Assistir ao es­pec­tá­culo de Paulo Portas em pleno Salão In­ter­na­ci­onal do Sector Ali­mentar e Be­bidas em Lisboa, a apre­goar para os ór­gãos de co­mu­ni­cação, na­quele seu pe­cu­liar es­tilo de fei­rante, que as ex­por­ta­ções por­tu­guesas são o «porta-aviões da re­cu­pe­ração eco­nó­mica», só não dá von­tade de rir porque é quase ine­vi­tável a as­so­ci­ação com o jogo da ba­talha naval, o que por sua vez nos re­mete para o ne­gócio dos sub­ma­rinos que estão por aí a apo­drecer e para o in­só­lito des­fecho de um jul­ga­mento que meteu tanta água que não en­con­trou cul­pados.

Ainda assim, ouvir o vice-pri­meiro-mi­nistro a de­bitar «carne de suíno: 250 mi­lhões por ano; só frutas, mais de 300 mi­lhões de euros; azeite mais de 350 mi­lhões de euros; vinho 725 mi­lhões de euros; pro­dutos de­ri­vados do mar 805 mi­lhões de euros por ano», é caso para muito es­panto, pois dando de ba­rato o rigor dos nú­meros, tantos mi­lhões não só não batem certo com a mi­séria que grassa entre os tra­ba­lha­dores do sector como, so­bre­tudo, o mi­nis­te­rial en­tu­si­asmo choca com a sú­bita con­tenção de Pires de Lima.

Para quem não está lem­brado, diga-se que o mi­nistro da Eco­nomia, de­pois de ter in­ven­tado o «mi­lagre eco­nó­mico», foi aco­me­tido esta se­mana por sú­bita con­tenção e não apenas re­co­nheceu que a ex­pressão fora um «exa­gero de lin­guagem» como opta agora por dizer que «não há mo­tivo para um dis­curso de eu­foria» quando o de­sem­prego está como se sabe (e ele só diz saber do de­sem­prego ofi­cial).

Cer­ta­mente a pensar nas suas pro­messas de co­men­tador e na pro­xi­mi­dade de elei­ções, Pires de Lima su­blinha que «a eu­foria é uma má con­se­lheira e não se re­co­menda no mo­mento em que os po­lí­ticos devem con­ti­nuar fo­cados na re­a­li­dade e na vida dos por­tu­gueses». Es­tará por ven­tura a pensar nos três anos su­ces­sivos de re­cessão que re­sul­taram numa queda acu­mu­lada do PIB de 5,8 por cento, o que equi­vale a uma des­truição de ri­queza pro­du­zida equi­va­lente a 9440 mi­lhões de euros, a uma des­truição de 323 500 em­pregos, a uma su­bida da taxa de de­sem­prego real para cerca de 24 por cento, com cerca de um mi­lhão e qua­tro­centos mil de­sem­pre­gados, e que levou a uma emi­gração for­çada de mais de 200 mil por­tu­gueses? Talvez. Ou talvez es­teja a pensar na sua cor­re­li­gi­o­nária das Fi­nanças, Maria Luís Al­bu­querque, que foi a Bru­xelas ga­rantir que a «dis­ci­plina or­ça­mental» terá de se pro­longar por «muitos anos» e que é pre­ciso «dizer às pes­soas que não se vai voltar ao que havia antes, porque não há nada para onde voltar, já não existe», ad­vo­gando mesmo que se pode «ar­gu­mentar que essa re­a­li­dade não existia re­al­mente, era uma ilusão e por isso é que a ater­ragem tem sido tão dura».

Temos pois que para o Go­verno, dis­cursos elei­to­ra­listas à parte, os por­tu­gueses ater­raram na po­breza, no de­sem­prego, na mi­séria, na es­po­li­ação dos seus mais ele­men­tares di­reitos e aí devem ficar en­ter­rados a ver passar os porta-aviões de Paulo Portas. Não que­riam mais nada. Aterro por aterro, vamos à luta.

 



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