Trapaceiros

Manuel Rodrigues

Desde tempos imemoriais, o povo tem por hábito chamar trapaceiros aos «trampolineiros», «embusteiros», «intrujões», qualificação que, sejamos justos, os membros do Governo (e os seus grilos falantes) merecem por inteiro.

Recorrendo à sua proverbial habilidade para, no momento certo (geralmente em véspera de eleições), transformar milagrosamente a espinhosa realidade social que vão criando, os governantes embusteiros – neste caso, o PSD e CDS – sacam a varinha mágica e «záz!»: «São rosas, senhor, são rosas!»

Três anos de Governo PSD/CDS: um milhão e meio de desempregados, três milhões de pobres, 500 000 desempregados sem qualquer apoio social, 250 000 trabalhadores que se viram forçados a emigrar, mais de 70 000 empresas arrastadas para a falência, uma redução média de salários superior a 10%, mais de 300 000 empregos destruídos, menos acesso a cuidados de saúde e educação, uma dívida pública que já atinge 129,4% do PIB.

Mentira! – garantem os trapaceiros com a sua característica falta de vergonha – e logo juram, a pés juntos, que só uma certa oposição, militantemente detractora, não enxerga tão porfiados esforços para salvar Portugal.

E onde uns vêem espinhos, os outros vêem as fantásticas rosas da recuperação económica, da retoma, da diminuição do desemprego, do aumento das exportações e da procura, da viragem, da saída (limpa ou suja, tanto faz) do programa de resgate da troika.

Falam de sucesso da sua política e celebram os êxitos, como se o povo e o País, encantados pelos efeitos mágicos da tal varinha, sentissem agora uma extraordinária oferta de emprego, os salários e as pensões a subir, o poder de compra a aumentar, a dívida pública a diminuir, os emigrantes a regressar, os filhos a retornar à escola precocemente abandonada, as micro, pequenas e médias empresas em novo dinamismo e o acesso sem reservas aos cuidados de saúde e à cultura.

Sucesso? Êxito? Recuperação? Sem dúvida! Para o povo e o País? Isso não, que outra é a natureza de classe da sua fértil criação. Quando dizem que estão a salvar Portugal, verdadeiramente, o que querem dizer é que estão a salvar o capital. Uma só palavra e faz tanta diferença!

 



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