A coutada
Paulo Portas pôs-se há dias a dizer aos espanhóis, numa reunião do PP de Rajoy, que há «terra à vista!», «como diziam os nossos marinheiros!», pois «daqui a três meses» chegará o «fim do resgate» português, a devolução da «soberania financeira» e o «regresso aos mercados», acrescentando, em espanholês esmerado, que «o socialista é muito bom a gastar o dinheiro dos outros, mas quando acaba o dinheiro chamam-nos a nós e a vocês para compor as coisas», encerrando com uma tirada à Exterminador Implacável: Portugal is back!
Foi muito aplaudido pelos espanhóis do PP – mesmo anunciando-o como «Pedro Passos Coelho» –, festejando-lhe o entremez do «nós e vocês» a «pôr as contas direitas», talqualmente esta malta reaccionária gosta de se brunir.
Portas é um jongleur de palavras, uma metáfora ambulante, e também aí está à la page do estilo que a sua coligação exsudou pelo País, o da manipulação das palavras. Num texto recente e brilhante de Hélia Correia, intitulado precisamente «Com respeito às palavras», a escritora denunciava a manipulação de termos ou expressões pelo Governo vigente. É o caso do «cortar nas gorduras do Estado» (o Estado não é biológico, mas assim fica humanizado e o «corte» de «gorduras» parece redentor), de «mercados» (como se fossem «pessoas» com humores e vontade), de «narrativas» (os acontecimentos tornam-se numa «construção» ao gosto e não credíveis, por definição), de «austeridade» (que tem alguma ressonância de coisa justa e incorruptível, mas o que faz é empurrar um povo para a miséria) ou de «escrutínio» (uma palavra que significa «vigilância» e foi encurralada na «contagem de votos»), etc., etc.
Portas é também inventivo. Na coligação com Santana Lopes criou a «vigilância por avistamento» no caso do Prestige a derramar petróleo no mar da Galiza e, agora com Passos Coelho, já anunciou que «vamos ter um novo 1640» e a pôr marinheiros portugueses quinhentistas a «avistar terra» para os espanhóis do PP, a par de lhes vender o peixe (decerto também quinhentista) acerca do «regresso aos mercados» e à «soberania financeira» que aí vêm daqui a três meses, altura em que «nos livraremos da troika» e Portas «avança para compor as coisas».
Portas é paradigmático do comportamento do Governo, pois todos lêem pela mesma cartilha: mentem com a naturalidade com que disseram o contrário do desmentido (os exemplos são quase diários), não sabem, não querem saber e têm raiva a quem sabe alguma coisa remotamente relacionada com o sofrimento que as suas medidas cegas espalham diariamente sobre as famílias como pazadas de cal, não há, na generalidade do que dizem ou fazem, uma réstea de sensatez ou um pingo de vergonha, agem como senhores feudais e nada mais são do que um bando à solta no País.
Delendus est Governo Passos/Portas, parafraseando Catão, o Velho.