A coutada

Henrique Custódio

Paulo Portas pôs-se há dias a dizer aos es­pa­nhóis, numa reu­nião do PP de Rajoy, que há «terra à vista!», «como di­ziam os nossos ma­ri­nheiros!», pois «daqui a três meses» che­gará o «fim do res­gate» por­tu­guês, a de­vo­lução da «so­be­rania fi­nan­ceira» e o «re­gresso aos mer­cados», acres­cen­tando, em es­pa­nholês es­me­rado, que «o so­ci­a­lista é muito bom a gastar o di­nheiro dos ou­tros, mas quando acaba o di­nheiro chamam-nos a nós e a vocês para compor as coisas», en­cer­rando com uma ti­rada à Ex­ter­mi­nador Im­pla­cável: Por­tugal is back!

Foi muito aplau­dido pelos es­pa­nhóis do PP – mesmo anun­ci­ando-o como «Pedro Passos Co­elho» –, fes­te­jando-lhe o en­tremez do «nós e vocês» a «pôr as contas di­reitas», tal­qual­mente esta malta re­ac­ci­o­nária gosta de se brunir.

Portas é um jon­gleur de pa­la­vras, uma me­tá­fora am­bu­lante, e também aí está à la page do es­tilo que a sua co­li­gação ex­sudou pelo País, o da ma­ni­pu­lação das pa­la­vras. Num texto re­cente e bri­lhante de Hélia Cor­reia, in­ti­tu­lado pre­ci­sa­mente «Com res­peito às pa­la­vras», a es­cri­tora de­nun­ciava a ma­ni­pu­lação de termos ou ex­pres­sões pelo Go­verno vi­gente. É o caso do «cortar nas gor­duras do Es­tado» (o Es­tado não é bi­o­ló­gico, mas assim fica hu­ma­ni­zado e o «corte» de «gor­duras» pa­rece re­dentor), de «mer­cados» (como se fossem «pes­soas» com hu­mores e von­tade), de «nar­ra­tivas» (os acon­te­ci­mentos tornam-se numa «cons­trução» ao gosto e não cre­dí­veis, por de­fi­nição), de «aus­te­ri­dade» (que tem al­guma res­so­nância de coisa justa e in­cor­rup­tível, mas o que faz é em­purrar um povo para a mi­séria) ou de «es­cru­tínio» (uma pa­lavra que sig­ni­fica «vi­gi­lância» e foi en­cur­ra­lada na «con­tagem de votos»), etc., etc.

Portas é também in­ven­tivo. Na co­li­gação com San­tana Lopes criou a «vi­gi­lância por avis­ta­mento» no caso do Pres­tige a der­ramar pe­tróleo no mar da Ga­liza e, agora com Passos Co­elho, já anun­ciou que «vamos ter um novo 1640» e a pôr ma­ri­nheiros por­tu­gueses qui­nhen­tistas a «avistar terra» para os es­pa­nhóis do PP, a par de lhes vender o peixe (de­certo também qui­nhen­tista) acerca do «re­gresso aos mer­cados» e à «so­be­rania fi­nan­ceira» que aí vêm daqui a três meses, al­tura em que «nos li­vra­remos da troika» e Portas «avança para compor as coisas».

Portas é pa­ra­dig­má­tico do com­por­ta­mento do Go­verno, pois todos lêem pela mesma car­tilha: mentem com a na­tu­ra­li­dade com que dis­seram o con­trário do des­men­tido (os exem­plos são quase diá­rios), não sabem, não querem saber e têm raiva a quem sabe al­guma coisa re­mo­ta­mente re­la­ci­o­nada com o so­fri­mento que as suas me­didas cegas es­pa­lham di­a­ri­a­mente sobre as fa­mí­lias como pa­zadas de cal, não há, na ge­ne­ra­li­dade do que dizem ou fazem, uma réstea de sen­satez ou um pingo de ver­gonha, agem como se­nhores feu­dais e nada mais são do que um bando à solta no País.

De­lendus est Go­verno Passos/​Portas, pa­ra­fra­se­ando Catão, o Velho.




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