Dos provocadores, o sossego e a luta
O processo e a realização da «prova de avaliação de conhecimentos» dos professores demonstra como age um governo socialmente isolado, maniqueísta na forma de exercer o poder político e toldado por um sentimento de raiva contra aqueles que é suposto representar.
Depois de decidir uma prova que é já de si uma tentativa de divisão entre a classe docente, depois de tentar dividir os professores entre «vigilantes» e «avaliados», o Governo tentou, em vergonhoso conluio com a FNE/UGT a cartada final da divisão entre professores com menos e mais de cinco anos de serviço. A estratégia de Crato e do Governo é clara: mascarar mais despedimentos por via de um mentiroso objectivo de «qualidade», humilhando para tal todo um grupo profissional, um dos mais respeitados entre toda a população e reconhecidamente empenhado na sua missão de ensinar e formar os futuros cidadãos deste País.
A estratégia da divisão não é nova. É uma marca deste Governo e do seu ódio a todos os que dele discordam. O que é novo é que esta violência política é levada a cabo num sector nevrálgico do Estado e da sociedade e passou todos os limites, fosse por declarações de Crato «assassinando» profissionalmente milhares de docentes saídos das Escolas Superiores de Educação, fosse pela acção de autênticos «cães de fila» que chamaram para dentro das Escolas – locais sagrados de liberdade, democracia e tolerância – a polícia de choque.
Uma violência sem limites que a frase de Marques Guedes, carregada de ódio, profundamente maniqueísta, irresponsável e própria de um provocador, traduz. «Não há nenhum pai que possa ficar sossegado se achar que alguma daquelas pessoas com as cenas a que assistimos ontem [18/12] na televisão possa ser professor de um filho seu», disse o governante.
Sou pai de dois filhos, e se há coisa que não me deixa sossegado é que Marques Guedes possa fazer, em democracia, uma afirmação desta gravidade impunemente. O que me desassossega é constatar que o limiar entre governantes de Estado e ditadorezinhos provocadores fica cada vez mais ténue com atoardas e atitudes como estas. Mas, o que nos dá força, e um dia nos há-de sossegar e livrar de gente como esta, é ver que existem muitos que, como os professores, não cedem ao medo e com grande dignidade resistem e lutam! Unidos!