Evocação de Álvaro Cunhal na Assembleia da República

Estadista ao serviço do povo e da pátria

A biblioteca da Assembleia da República foi, anteontem, palco de uma sessão evocativa de Álvaro Cunhal, que destacou o seu papel como estadista.

Álvaro Cunhal dizia nas instituições o mesmo que ao povo

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Realizada ao final da tarde, a sessão contou com a intervenção do Secretário-geral do PCP, que começou por evidenciar o quão difícil é «dividir, separar cada uma das dimensões» da acção política de Álvaro Cunhal, pois esta é «coerente e una». Mais difícil se torna a missão quando em causa está uma dimensão como a de estadista, que Álvaro Cunhal entendia (e praticava) como não estando limitada à intervenção nas instituições – e participou no governo, na Assembleia da República e no Conselho de Estado –, estendendo-se ao inestimável contributo que deu «como ideólogo, estratego, intelectual e dirigente», inserido no colectivo do Partido Comunista Português.

Feitas as ressalvas, o dirigente do PCP garantiu que a imediata integração de Álvaro Cunhal no primeiro governo provisório saído da Revolução de Abril de 1974, como ministro sem pasta, «é uma inclusão natural e lógica». Que significou, nomeadamente, tanto o reconhecimento pelo seu trajecto de «intrépido lutador antifascista, da sua elevada capacidade política e de liderança», como pelo «inestimável e inigualável papel que desempenhou, como Secretário-geral do PCP, na teorização da revolução portuguesa».

Mas a presença de Álvaro Cunhal no governo tem outra dimensão e significado, realçou Jerónimo de Sousa: o que ele representava no plano partidário nacional, enquanto mais destacado dirigente da «maior e mais importante força política portuguesa, que se afirmou, durante o longo percurso de 48 anos do combate pela liberdade e pela democracia, como a grande força nacional antifascista».

Dignidade e verdade

No período em que exerceu funções governativas, acrescentou Jerónimo de Sousa, Álvaro Cunhal deu um «importante e decisivo contributo» para a superação de problemas vitais à própria sobrevivência da Revolução, revelador de «toda a sua estatura de estadista». Isto apesar de ter exercido as funções de ministro em governos em que os comunistas estavam em minoria e num quadro marcado por profundas divergências entre forças e tendências políticas, resultante dos diversos projectos políticos.

De entre as suas mais notáveis contribuições neste período, o Secretário-geral do PCP destaca a «identificação, popularização e credibilização da aliança povo-MFA como o motor da Revolução» e o esforço para a cimentar, bem como a procura de «soluções de fortalecimento da unidade no interior de cada uma das suas componentes à volta da defesa dos grandes objectivos da democracia nascente».

A sua intervenção ficaria igualmente marcada por uma «relação de autenticidade do dirigente político e do estadista com os trabalhadores e o povo», particularmente na capacidade que tinha de «dar sentido à acção das massas para lá dos muitos combates pelo imediato melhoramento das suas condições de vida, para lá da conjuntura». Menos visível, mas não menos decisiva, terá sido a sua «corajosa e frontal acção no interior do governo em momentos de grande tensão e cruciais para a defesa da Revolução e da democracia».

Após lembrar que Álvaro Cunhal «intervinha e afirmava no governo e nas outras instituições o mesmo que dizia ao povo cá fora», Jerónimo de Sousa rejeitou qualquer dissociação entre a «superior dimensão do dirigente político e estadista que foi Álvaro Cunhal» e os seus ideais e objectivos programáticos e a sua concepção da política. Quanto a esta última questão, lembrou o dirigente do PCP, Álvaro Cunhal via a política como uma forma de «servir o povo e o País, e não interesses pessoais ou de grupo»; assumia-a com uma «entrega desinteressada», recusando sempre vantagens e privilégios; e norteava-a com «valores políticos éticos, desde logo o valor do respeito pela verdade».

Antes de Jerónimo de Sousa, intervieram na sessão, entre outros, Albano Nunes, Carlos Carvalhas, Domingos Abrantes e João Oliveira, que destacaram diferentes vertentes da acção de Álvaro Cunhal como estadista ao serviço do povo e da pátria.

 

Dar novos mundos a Portugal

O Secretário-geral do PCP destacou ainda a actividade desenvolvida nesses anos por Álvaro Cunhal no «alargamento e diversificação das relações externas do País». Assim, revelou, foi ele quem dirigiu a primeira missão governamental à URSS, em Outubro de 1974, no seguimento do estabelecimento de relações com a maioria dos países socialistas da Europa. Esta actividade, acrescentou, contribuiu para o estabelecimento de acordos económicos, comerciais e culturais com estes países, particularmente úteis quando o País começou a enfrentar a «acção desestabilizadora da conspiração, também no plano económico e financeiro».

Não menos importante, garantiu Jerónimo de Sousa, foi a acção desenvolvida para abrir as relações de Portugal com os povos do mundo árabe, de África, da Ásia e da América Latina. Assim, lembrou o dirigente do PCP, «não se podem deixar de salientar os contributos de Álvaro Cunhal na luta contra o apartheid e de apoio à causa palestiniana e as relações estabelecidas por Álvaro Cunhal, como dirigente do PCP, com importantes figuras dos estados e dos movimentos de libertação destes continentes, como Oliver Tambo primeiro e Nelson Mandela mais tarde, Sam Nujoma, Robert Mugabe, Yasser Arafat, Jumblat, Mengistu Hailé Mariam e muitos outros».




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