A balançar
Neste momento, o que protege o Governo e o Presidente da República do escárnio público é o cordão sanitário que, em nome da «segurança do Estado», as forças policiais asseguram à volta de todos e de cada um destes protagonistas do actual descalabro. Nenhum escapou aos vitupérios, protestos e insultos populares que lhes cortam o caminho em qualquer visita oficial e é tanto assim, que também nenhum já se atreve a pôr o nariz de fora de um círculo policial. A situação é patética e dramática, não havendo classe ou profissão que não estejam incomodados ou em pé de guerra e prontos a manifestar-se publicamente contra a vertigem de destruição das funções sociais do Estado, que o Governo prossegue à outrance. É só olhar em volta: operários e trabalhadores em geral invadem as ruas com protestos crescentes e as manifestações não cessam de aumentar vindas de toda a parte, seja nos juízes, polícias, militares ou na multifacetada realidade das profissões liberais, todos a efervescer e a mobilizar greves e manifestações.
Sumariamente, com um milhão e meio de desempregados, dezenas de milhares de pequenas e médias empresas encerradas (num quadro nacional onde são elas que garantem entre 80 e 90% do emprego e da produção do País) e um novo «pacote» de austeridade que visa desmantelar, em definitivo, as funções do Estado na Saúde, na Educação e na Segurança Social, estamos perante o desenvolvimento de um golpe de Estado visando a destruição do regime democrático que a Revolução de Abril instaurou.
Um golpe de Estado travestido de «exigências da troika» e concretizado por uma torrencial e deliberada legislação inconstitucional.
Agora, o Governo já não age, apenas reage encurralado no labirinto de mentiras e de declarações catastróficas, com cada um a dizer o que lhe apetece e todos actuando como se estivessem ungidos por Deus no abuso totalitário do País.
Mantendo, todavia, um objectivo denodadamente constante: o de liquidar a realidade humanista do Portugal de Abril – o tal «novo paradigma» que Passos Coelho emproadamente anunciou, na tomada do poder.
Hoje ninguém acredita nos governantes, tantas vezes ouviram os próprios a dizer uma coisa e o seu contrário com a desfaçatez dos mentirosos compulsivos, em verdade a única competência largamente exibida. Mas o desconchavo não se fica na mentira curta e grossa, espraia-se com Paulo Portas a proclamar que o final do resgate em meados do ano que vem «será um novo 1640» (esquecendo que o Miguel de Vasconcelos a defenestrar seria o próprio Governo), enquanto Passos Coelho e a inenarrável ministra das Finanças falam de novos resgates ou, ainda esta última, a concluir numa semana que vai haver um «programa cautelar» para, na seguinte e perante a recusa da Irlanda do tal «cautelar», admitir que «também nós podemos dispensá-lo».
O Governo está morto e o PR balança-o, para fingir que está vivo.