Branqueamentos

João Frazão

Independentemente da opinião que se possa ter sobre a «performance» do actual secretário-geral e da actual direcção do PS ou sobre as diversas correntes que, aparentemente, se digladiam entre si, organizadas em torno dos seus chefes e das suas iniciativas próprias, espreitando objectivos específicos que podem parecer contraditórios, o que, nesta fase da vida nacional, marca a intervenção do PS, dos seus dirigentes e dos seus mais notáveis militantes, é uma imensa tentativa de branqueamento das suas responsabilidades na situação em que nos encontramos.

Nas últimas semanas saltaram todos para terreiro, uns de olhos postos nas eleições presidenciais, outros convencidos que o seu lugar é a presidir a um próximo governo, todos a pensar que o que interessa é garantir que, na alternância com que sempre sonham e em que estão de novo visivelmente empenhados, o PS continua a ter o lugar que os centros de decisão do capital lhe reservam, sendo necessário para isso procurar diferenciar o PS de antes do PS de agora. Uma espécie de «este PS não tem nada a ver com os PS anteriores, que com Soares, Guterres ou Sócrates no governo foram sempre executores da política de direita».

Ora, por mais alto que tal ou tal dirigente fale aos microfones que lhe põem à frente, por mais opositor que afivele o discurso, há três factos que são inelutáveis.

O primeiro, o de que foi o PS, e não qualquer outro, que decidiu negociar com a troika estrangeira o pacto de agressão e que assinou os objectivos lá inscritos, entregando de mão beijada ao PSD e ao CDS esse programa de governo antinacional e antipatriótico.

O segundo, o de que ninguém impede o PS de afirmar com clareza que se afasta desse pacto, assumindo o erro que cometeu, e passando a defender outro caminho, que rompa com o rumo de desastre que ele implica.

O terceiro, o de que, num quadro em que o clamor popular exige a demissão do Governo e a derrota desta política, ao assumir em definitivo como posição oficial a de esperar pelas eleições legislativas até 2015, desistindo de exigir eleições antecipadas, o PS estende, na prática, uma passadeira vermelha à acção destruidora deste Governo até essa data.

Resta, como desde a primeira hora afirmamos, a luta para lhes trocar as voltas!




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