Por falar nisso...

Anabela Fino

A apresentação do Orçamento do Estado para 2014 foi antecedida por uma semana assaz profícua em iniciativas e declarações envolvendo figuras com particulares responsabilidades no estado da nação. Um desses acontecimentos foi a convenção empresarial «Sobreviver e crescer», promovida pela Associação Industrial Portuguesa (AIP), onde entre muitas outras coisas se ouviu o respectivo presidente, José Eduardo Carvalho, pedir a revisão da Constituição e defender a redução dos custos salariais.

Presente no conclave dos patrões, o primeiro-ministro Passos Coelho aproveitou o palco para antecipar não haver nenhuma razão para se esperar que o OE «seja um Orçamento de não levar mais longe a preocupação com a redução do défice estrutural e nominal», dado ser isso que está acordado com os credores, mas sobretudo ser «disso que precisamos para retomar uma ampla confiança dos investidores».

Outro acontecimento relevante foi a divulgação do Boletim de Outono do Banco de Portugal, recheado de informações que vale a pena reter, tais como: em 2011 e 2012, observou-se um aumento da fracção de trabalhadores com reduções de remuneração, que ascendeu a 22,2% e 23%, respectivamente; em 2011 e 2012, 15,4% dos trabalhadores tiveram variações nulas [nos salários] nos dois anos e 39,4% teve pelo menos uma variação negativa (o que significa que mais de metade dos trabalhadores em Portugal sofreram perdas salariais); a remuneração média dos que entraram [no mercado de trabalho] em 2012 foi mais baixa, em cerca de 110 euros, ou 11%, do que a remuneração média dos trabalhadores que cessaram contrato em 2011; dos 886 mil desempregados registados no final do segundo trimestre apenas 388 mil (43,9%) tinham direito a um apoio; o desemprego de longa duração continuou a crescer e o de muito longa duração (mais de 25 meses) continuou a crescer a taxas elevadas; entre 2011 e 2013 o PIB português perdeu 6% do seu valor; continuará o processo de divergência real entre Portugal e a média da área do euro, com o alargamento do diferencial negativo acumulado desde o início da união monetária para mais de 10% (para ser preciso, 10,7%).

De assinalar também a lapidar afirmação do deputado do PSD e agora presidente de Câmara Paulo Batista Santos, de que «Portugal está definitivamente a mudar de vida, a recuperar a sua credibilidade externa», pelo que as críticas da oposição não passam de «falácias» sem «nenhuma adesão com a realidade».

E houve, claro, a conferência de imprensa de Paulo Portas, indignado com quem anda a meter medo às viúvas e velhos de quem ele tanto gosta e com quem tanto se preocupa.

No fim de tudo isto veio o Orçamento do Estado pela voz da ministra Swap com mais um brutal corte nos salários, nas pensões, nas reformas, aumento de impostos e tudo o mais que entretanto se vai sabendo, para alegria do já referido senhor da AIP, da banca e da Europa. Passos Coelho, evidentemente, virá dizer tudo vai bem, que estamos no rumo certo e que o que é preciso é acelerar a pedalada.

Numa altura em que tanto se fala de marchas, estamos em crer que já é mais do que tempo de dar corda aos sapatos – ainda que sobre rodas, como no sábado iremos fazer na Ponte 25 de Abril porque ilegitimamente nos foi cortada a passagem a pé – e correr com esta gente.




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