O malabarista
Estava eu a ouvir Paulo Portas no domingo a fazer a sua declaração urbi et orbi, em todos os telejornais, e a pensar comigo «este gajo é mesmo um artista de circo, daqueles que são apresentados com um longo rufo enquanto a plateia está de olhos presos no tecto da tenda e, ao longe, uma voz de falsete sublinha o risco da habilidade, numa interminável lenga-lenga».
Paulo Portas, o chefe do dito partido dos reformados, face à enorme contestação popular relativamente ao roubo nas pensões de sobrevivência, decidiu explicar a medida, enquanto, no segredo dos gabinetes, o Conselho de Ministros cozinhava ainda outros roubos e novos golpes e ataques aos viúvos e viúvas, a todos os idosos, aos seus filhos e netos, aos trabalhadores em geral.
Sobre todas essas malfeitorias, sobre esse processo de aprofundamento da exploração e do empobrecimento do povo português, Paulo Portas não falou e também não foi perguntado.
Sobre as calúnias que uns e outros andam a lançar para amedrontar os pobres velhinhos, Paulo Portas disse o que quis.
Que esta medida (não é um corte, é uma medida!) é só para esses ricalhaços que recebem mais de 2000 euros por mês, tentando espalhar a divisão entre os pensionistas.
Que, imagine-se a falta de vergonha, esta medida é mais séria do que tirar todo o abono de família às famílias. E diz isto, apesar de ter chumbado, a 2 de Março de 2012, a proposta do PCP que alargava as condições de acesso de atribuição do abono de família, repondo esse direito que o PS roubou.
E que, tratando-se apenas de situações de acumulação de pensões, a primeira pensão nunca seria afectada, escondendo que as pensões de todos os pensionistas sofreram já cortes brutais, quer por via do seu congelamento, quer pelo pagamento de taxas de solidariedade, quer por via de cortes directos.
No fim do número, com todo o cuidado tira as fitas que o prendem à vida, e diz para a partener das Finanças, já a pensar no momento em que há-de alargar os cortes a todos os outros, «esta, já está»!
Mas o público percebeu o truque e, já a 19 nas Marchas por Abril, há-de pedir a devolução do bilhete!