A força da opinião pública

Albano Nunes

Por mais «limitada» e «cirúrgica» que se apresente, a agressão à Síria só pode provocar sofrimento e destruição e incendiar toda a região.

Ao anunciar que iria ouvir o Congresso, Obama abriu um compasso de espera na escalada de guerra contra a Síria. Por momentos o mundo respira aliviado. Mas as forças da paz têm de permanecer vigilantes e ganhar ainda mais consciência da força de uma opinião pública esclarecida e mobilizada para atar as mãos do imperialismo.

Na verdade, por detrás das dificuldades encontradas pelos EUA na sua marcha para a guerra e da manobra de envolver o Congresso para ganhar tempo e recompor-se de importantes desaires políticos, diplomáticos e mesmo militares, está a força da opinião pública, estão manifestações populares que, como nos EUA, adquiriram já apreciável dimensão.

As sondagens de opinião conhecidas mostram uma generalizada oposição à guerra, realidade que o poder não pode ignorar, como se viu no Parlamento Britânico com a derrota de Cameron, privando inesperadamente Washington do seu principal aliado. Mas o imperialismo norte-americano, em nome da «credibilidade e dos interesses futuros dos EUA», não desiste da agressão, mesmo sem qualquer cobertura da ONU ou as alianças que desejava. Kerry já apresentou as «provas» que «obrigam» dar à Síria uma «lição exemplar». A decisão está tomada. Trata-se agora de lhe dar uma fachada de legitimidade que certamente o Congresso lhe dará pois não se trata dos «representantes do povo americano» mas dos representantes do capital.

Preparemo-nos pois para um novo episódio de propaganda terrorista, cantando hossanas à «democracia americana» para justificar a guerra, com peças de autêntico mercenarismo e indignidade profissional como aquelas com que, rufando alto os tambores da guerra, os principais órgãos da comunicação social nos brindaram, com destaque para o «Público», sempre pronto a reproduzir sem vergonha a voz do agressor. Entretanto a vigilância, o esclarecimento e a mobilização têm de continuar. Contra a guerra, pelo respeito da Carta da ONU, por uma justa solução política do conflito, sejam quais forem as conclusões sobre o que realmente se passou em 21 de Agosto. Por mais «limitada» e «cirúrgica» que se apresente, a agressão à Síria só pode provocar sofrimento e destruição e incendiar toda a região.




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