É o que dá
O torvelinho começou a 1 de Julho com a demissão do ministro de Estado e das Finanças, Vítor Gaspar, que acrescentou uma carta pública onde declarava o falhanço da sua política. No dia seguinte Paulo Portas, ministro de Estado, dos NE e líder do CDS-parceiro-no-Governo, também apresentou uma «irrevogável» demissão acompanhada de mais uma carta. Passos Coelho recusou a demissão e Portas passou de «irrevogável» demitido a jubiloso retornado, cobrando a promoção a vice-primeiro-ministro e a coordenador efectivo do Governo (a tutelar Finanças, Economia, ligações à troika e «reforma do Estado»). Dali seguiram alegremente para Belém a apresentar a nova aliança, agora saída da arca da pouca-vergonha.
No dia 10 de Julho surgiu o primeiro discurso à Nação do Presidente, que disse três coisas, a terceira por omissão: uma, que não iria convocar eleições antecipadas, porque isso «seria extremamente negativo para o interesse nacional»; outra, que exortava os três assinantes do memorando – PSD, PS e CDS – a estabelecerem «um acordo de médio prazo» para um «compromisso de salvação nacional»; a terceira, que rejeitava as propostas de demissões e readmissões engendradas pela coligação, ao omiti-las ostensivamente no discurso.
Seguiu-se mais uma semana de inacreditáveis «negociações» entre três partidos de notório e irredutível antagonismo táctico: de um lado o PS, que apenas por impulso suicidário se comprometeria a amarrar-se a uma coligação governamental desfeita e desacreditada, do outro os sócios PSD e CDS a estrebuchar pela esmola da arregimentação do PS que os reactivasse na governação. No entremendes, Cavaco Silva foi passear às Selvagens, no arquipélago da Madeira, para anilhar cagarras e exibir delíquos panteístas perante as televisões.
O inevitável falhanço desta presidencial manobra confirmou-se com o rompimento das «negociações» e, no domingo, inacreditavelmente, Cavaco Silva reconduz a coligação Passos/Portas.
Nesta pantomina, o Governo escancarou o oportunismo e a desvergonha que há dois anos exibe, agora alapando-se ao poder após uma implosão em público que, se houvesse por ali um resquício de ética democrática, o conduziria à demissão imediata.
Quanto ao Presidente Cavaco Silva, decidiu salvar um Governo feito em cacos e, em concomitância, promover a sua política ao serviço do grande capital que, em dois anos, produziu meio milhão de desempregados e afundou o País na ruína e numa dívida impagável.
A rematar, Cavaco Silva ainda quis «substituir» as eleições que não convocou – e devia convocar – por uma selecção de partidos do seu agrado, a quem pedia um «compromisso a longo prazo» a amarrar o País ad aeternum aos ditames da troika – tudo, escandalosa e largamente, a extravasar os seus poderes e competências constitucionais.
É o que dá pôr a direita na Presidência da República.