O buraco
«Ministra foi mostrar o buraco» – era assim a manchete do Jornal de Notícias do dia 17. Referia-se ao facto de a ministra das Finanças ter participado nas negociações entre PSD, PS, CDS e a Presidência da República na semana passada, supostamente para expor a situação financeira do País.
A frase até podia ter piada numa canção de Quim Barreiros. Mas num jornal que se diz de referência, que comemora 125 anos, para dar nota de evoluções políticas com consequências reais na vida do País, não podia estar mais desadequada.
Há locais e momentos para tudo. Quim Barreiros também inspirou a versão de «Entra o Paulo, sai o Paulo», que Vasco Palmeirim adaptou com sucesso aos microfones da Rádio Comercial, pondo a nu as contradições e a hipocrisia de Paulo Portas e do seu CDS neste processo.
Todos os jornais têm secções de cartoon e de crónica onde cabem muito bem a ironia, a piada, o segundo sentido. Portugal tem uma longa história de utilização do humor nos jornais, de que Rafael Bordalo Pinheiro e o seu Zé Povinho são ícones. Mas este título é outra coisa. Se em vez de mulher o ministro das finanças fosse homem o JN faria a piadinha? A ambiguidade serve a informação do leitor?
Dirão que o papel das primeiras páginas também é serem chamativas e levar a que se compre o jornal. Sem dúvida – até há publicações que põem pessoas nuas na capa. Não são é jornais de referência, como o JN diz ser e os seus profissionais se esforçam para que seja.
Dirão que o «os políticos» tratam mal o povo e merecem ser mal tratados – mas essa é uma tese que encaixa direitinha na campanha que nos quer convencer de que os partidos são todos iguais.
Este título não acrescenta nada ao que já sabemos sobre a situação financeira do País. Só acrescenta lama ao lodaçal.
O jornalismo tem um papel indispensável na denúncia das injustiças, da corrupção, das ilegalidades. No panorama da comunicação social portuguesa falta muito jornalismo de investigação, sério, responsável, determinado. Aos grupos económicos que detêm hoje os órgãos de comunicação social interessa-lhes mais manter os jornalistas precários, mal pagos, sem meios para saírem da redacção e investigar. Ou a inventar títulos brejeiros e inconsequentes.