Por um fio

Anabela Fino

Se Passos Coelho fosse dado às lides ferroviárias, estaria neste momento muito atarefado a procurar a melhor forma de mudar de linha para evitar o descarrilamento do comboio da governação. Não é manifestamente o caso. Passos Coelho parece mais dado às artes subtis da costura, pelo que deve andar a pensar com os seus botões qual a linha a usar para cerzir o discurso oficial de molde a mantê-lo em linha com a cada vez mas desalinhada realidade nacional, que a cada dia que passa está mais próximo de partir a corda que a política das troikas persiste em esticar, esticar, esticar.

Enquanto isso, os números do descalabro vão vindo a público, tão alinhados uns com os outros que não deixam margem para dúvidas quanto à fatiota que está a ser talhada para Portugal e para os portugueses:

queda do PIB de 7,7% desde o pedido de resgate, queda do investimento na ordem dos 50%, queda da procura interna de 20%. Em alta só mesmo as consequências de tanta queda: aumento da dívida pública (50,8 pontos percentuais do PIB, metade da riqueza produzida pelo País, desde 2008), aumento das falências, aumento do desemprego, aumento da miséria, aumento da exclusão social.

Diz-se amiúde que os números não têm rosto, mas isso está longe de ser verdade.

Quando a frieza dos números atesta que há mais de um milhão e quatrocentos mil desempregados, dos quais menos de um terço recebe subsídio de desemprego, isso significa – dando de barato que a qualidade de vida se reduz à mera satisfação das necessidades básicas – um imenso contingente de homens e mulheres, jovens e menos jovens, sem meios para pagar a casa, a água, a luz, a escola dos filhos, a comida que era suposto pôr na mesa.

Quando se constata, por simples aritmética, que nos últimos dois anos Portugal foi o país europeu que mais cortou na despesa social – uma redução de 3700 milhões de euros – não obstante já em 2011 se encontrar entre os países em que o risco de pobreza e exclusão social nas crianças e nos idosos suplantava a média da União Europeia, isso quer dizer que há um enorme e intolerável número de barrigas de criança a inchar com fome enquanto nos seus cérebros se vão fechando as pontes para o natural desenvolvimento, e que objectivamente se está a atirar para a indigência e para a morte prematura quem na lógica trituradora do sistema se tornou descartável.

Quando as estatísticas revelam que, em termos globais, entre 2010 e 2011, a percentagem dos portugueses em risco de pobreza e exclusão social baixou de 25,3% para 24,4%, e que tal sucedeu porque nesse período caiu o rendimento médio do País que serve de base de cálculo das taxas, isso significa que a esmagadora maioria dos portugueses, gente de carne e osso com que nos cruzamos todos os dias, está agora mais próxima da pobreza e da exclusão.

É por tudo isto e o mais que aqui não cabe que ao ouvir Passos Coelho dizer que está tudo «em linha» com as previsões do Governo somos forçados a acreditar que o homem tem razão, ou seja, que tudo isto é um plano deliberado e que, face ao fim em vista – reduzir o País e o povo à miséria – até está a correr muito bem. Resta saber se entre a linha e a corda a «coisa» não estará por um fio.



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