O país dos «casos»

Aurélio Santos

Têm invadido o nosso quotidiano na última década. Dão-lhes a designação genérica de «caso», a que se seguem nomes sugestivos como: Monte Branco, Portucale, Face Oculta, Apito Dourado, Freeport, Expo, Cova da Beira, BPN, Furacão, Isaltino, Submarinos e outros de que já nos esquecemos. Proliferam na TV como novelas, enchem as páginas dos jornais durante uns dias, para logo serem substituídos por um outro «caso».

Aqui há umas décadas o termo «caso» era usado para designar o romance oculto da senhora X como senhor Y. Estes também são romances de amor, do amor entre figuras públicas, muitas das vezes políticos, a alta finança e, claro, o dinheiro – «o marido enganado» é o Estado, ou seja: TODOS NÓS.

Raramente sabemos o seu desfecho quer porque estes «casos» se passeiam uma eternidade pelos corredores dos tribunais, como convém, quer porque na maior parte das vezes terminam nas prateleiras bafientas dos tribunais, com um «falta de provas».

Lembremos alguns destes «casos»:

Expo: aluguer de paquetes para servir de hotéis – arguidos absolvidos; Estado lesado em 25 milhões de euros.

Portucale: abate de sobreiros para empreendimentos imobiliários – arguidos absolvidos.

Cova da Beira: corrupção e branqueamento de capitais, o Ministério Público pede pena suspensa para os arguidos.

Isaltino: corrupção passiva, fraude fiscal, branqueamento de capitais – arguido condenado, mas entre recursos e aclarações, continua sem cumprir pena.

Freeport: arquivado por falta de provas.

Apito Dourado: corrupção desportiva e abuso de poder, condenação com pena suspensa.

Submarinos: a empresa foi condenada na Alemanha e na Grécia, em Portugal foi feito um acordo, lesivo do Estado, para que não haja julgamento que estava adiado sine die.

Furacão: julga-se que o Estado ficou lesado em milhões por prescrição de alguns processos de fraude fiscal.

BPN: se o processo continuar ao ritmo que tem tido vai durar 50 anos…

Em processos sem nome, mas a velocidade relâmpago, os que vão ficando desempregados, os que não podem cumprir os compromissos assumidos pelo constante reduzir de salários, ficam sem casa e sem haveres da noite para o dia.

É tempo de tirar a venda à Justiça para que ela veja as injustiças que comete.



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