Lobo com pele de justiceiro
Nas últimas semanas, tiveram alguma visibilidade duas iniciativas acolhidas com simpatia pela opinião publicada: o pedido de facturas em nome de Passos Coelho, e as providências cautelares para tentar impedir as candidaturas de presidentes de Câmara com três mandatos concluídos.
Deixando para outra ocasião as questões em si, merece a pena fixar algumas notas sobre o movimento que lançou ambas. Uma breve consulta ao seu sítio na Internet mostra que, sob a irreverência do pedido das facturas ou da vontade moralizadora em torno das candidaturas, estão concepções populistas, bafientas e anti-democráticas contra a política, os políticos e os partidos.
Dizem que se inspiram nas conquistas da Revolução de Abril e adoptam como símbolo um cravo. Mas um cravo branco, justificando a cor como símbolo da pureza «reflectida na elevação da moralidade da sociedade portuguesa.»
Partem de sentimentos de genuína indignação que existem na sociedade («acordem, fomos e continuamos a ser enganados, roubados e escravizados»), mas a vontade de subverter o regime saído de Abril é indisfarçável: «transformar o Estado português», alterar a Constituição da República e as leis eleitorais.
O sítio disponibiliza um interessante texto com o título «porque é que o Movimento Revolução Branca defende o cumprimento do memorando da troika?». Dizem os senhores: «o problema de Portugal não está portanto no memorando da troika, está sim nos partidos políticos que temos que nos governaram, governam e fazem oposição não a pensar no Estado, na Nação e no Povo, mas a pensar nos seus próprios benefícios (…). A classe política que não está no poder esconde (nomeadamente o Bloco de Esquerda, o PCP e a central sindical CGTP, mero braço do PCP) que o memorando da troika se fosse plena e bem executado resolveria inúmeros problemas estruturais que o país tem, que toda a gente se queixa mas que afinal ninguém faz nada para resolver.» E elencam medidas que consideram positivas no memorando da troika, como a extinção de freguesias e municípios ou a redução do número de deputados na Assembleia da República.
E assim, com iniciativas a que até parece fácil aderir e sob do símbolo do cravo, se instalam as concepções mais reaccionárias.