Lobo com pele de justiceiro

Margarida Botelho

Nas últimas semanas, tiveram alguma visibilidade duas iniciativas acolhidas com simpatia pela opinião publicada: o pedido de facturas em nome de Passos Coelho, e as providências cautelares para tentar impedir as candidaturas de presidentes de Câmara com três mandatos concluídos.

Deixando para outra ocasião as questões em si, merece a pena fixar algumas notas sobre o movimento que lançou ambas. Uma breve consulta ao seu sítio na Internet mostra que, sob a irreverência do pedido das facturas ou da vontade moralizadora em torno das candidaturas, estão concepções populistas, bafientas e anti-democráticas contra a política, os políticos e os partidos.

Dizem que se inspiram nas conquistas da Revolução de Abril e adoptam como símbolo um cravo. Mas um cravo branco, justificando a cor como símbolo da pureza «reflectida na elevação da moralidade da sociedade portuguesa.»

Partem de sentimentos de genuína indignação que existem na sociedade («acordem, fomos e continuamos a ser enganados, roubados e escravizados»), mas a vontade de subverter o regime saído de Abril é indisfarçável: «transformar o Estado português», alterar a Constituição da República e as leis eleitorais.

O sítio disponibiliza um interessante texto com o título «porque é que o Movimento Revolução Branca defende o cumprimento do memorando da troika?». Dizem os senhores: «o problema de Portugal não está portanto no memorando da troika, está sim nos partidos políticos que temos que nos governaram, governam e fazem oposição não a pensar no Estado, na Nação e no Povo, mas a pensar nos seus próprios benefícios (…). A classe política que não está no poder esconde (nomeadamente o Bloco de Esquerda, o PCP e a central sindical CGTP, mero braço do PCP) que o memorando da troika se fosse plena e bem executado resolveria inúmeros problemas estruturais que o país tem, que toda a gente se queixa mas que afinal ninguém faz nada para resolver.» E elencam medidas que consideram positivas no memorando da troika, como a extinção de freguesias e municípios ou a redução do número de deputados na Assembleia da República.

E assim, com iniciativas a que até parece fácil aderir e sob do símbolo do cravo, se instalam as concepções mais reaccionárias.



Mais artigos de: Opinião

Por um fio

Se Passos Coelho fosse dado às lides ferroviárias, estaria neste momento muito atarefado a procurar a melhor forma de mudar de linha para evitar o descarrilamento do comboio da governação. Não é manifestamente o caso. Passos Coelho parece mais dado às artes subtis da...

A vitória de Correa

Cabe destacar a dimensão popular da vitória de Rafael Correa e do partido Aliança País (AP) nas eleições do Equador de 17 de Fevereiro e a sua importância para o processo da «Revolução Cidadã» e o quadro da luta na América Latina. De...

A minhoca

Já na passada semana, nas páginas do nosso Avante! se chamava a atenção para as contas do secretário de Estado dos Transportes que afirmava que, apesar da CP apenas ter 300 milhões de receitas anuais, uma boa parte dos quais em passes, perderia 1,1milhões diários...

O país dos «casos»

Têm invadido o nosso quotidiano na última década. Dão-lhes a designação genérica de «caso», a que se seguem nomes sugestivos como: Monte Branco, Portucale, Face Oculta, Apito Dourado, Freeport, Expo, Cova da Beira, BPN, Furacão, Isaltino, Submarinos e...