A minhoca

João Frazão

Já na passada semana, nas páginas do nosso Avante! se chamava a atenção para as contas do secretário de Estado dos Transportes que afirmava que, apesar da CP apenas ter 300 milhões de receitas anuais, uma boa parte dos quais em passes, perderia 1,1milhões diários com as greves. Dias depois veio justificar a redução de passageiros dos transportes públicos com o aumento das fraudes, contradizendo a informação das empresas de transportes que confirmam essa redução em consequência do agravamento das dificuldades económicas da população.

Mas Sérgio Monteiro não diz apenas alarvidades a partir dumas contas mal amanhadas. O dito secretário de Estado diz também coisas que lhe vão (a ele e ao Governo de que faz parte) na alma.

Num registo marcado pelo ódio visível à luta dos trabalhadores, já tinha dito há tempos, como na altura aqui assinalei, que não sabia bem se as greves marcadas para o período do Natal estariam dentro da legalidade, pondo em causa o direito à greve.

Desta feita volta à carga afirmando que (cito o sujeito de cor) «não percebe como é que os trabalhadores fazem plenários na hora em que deviam estar a trabalhar».

Cada vez mais, estes senhores falam pelas vozes do antigamente. Do tempo em que os trabalhadores não podiam reunir-se. Nem na hora do trabalho, nem nas de descanso. Do tempo em que as greves não estavam – escusava de ter dúvidas – dentro da legalidade. Do tempo em que todos os que reclamavam ou protestavam eram perigosos agitadores e potenciais comunistas.

Sérgio Monteiro, o aparentemente desajustado ou desbocado secretário de Estado, com ar modernaço, é apenas um sinal dos tempos. De tempos em que a ofensiva, no sentido do empobrecimento do povo e do País, do incremento da exploração, para além de todos os limites, incluem já o questionamento das liberdades democráticas, designadamente, nas empresas e locais de trabalho. Afinal, é necessário começar por algum lado... Não é?

Sérgio Monteiro é sinal de que, como tantas vezes temos afirmado, eles andam aí! E que como ainda recentemente assinalámos no nosso XIX Congresso, o exercício dos direitos é a primeira linha da sua defesa! Contra os sérgios monteiros deste mundo! E contra as minhocas que se infiltram na maçã.



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