Um ponto final nesta política
«A manter-se esta política, isto vai acabar mal, muito mal». O aviso é do Secretário-geral do PCP, que não vê outra forma de evitar tal desfecho que não seja a demissão do Governo.
O País está farto de tanta hipocrisia e dissimulação
Jerónimo de Sousa reagia sexta-feira passada, no debate quinzenal com o primeiro-ministro, aos números vindos a público sobre a evolução da situação económica e social do País e em particular os que fecharam o último trimestre de 2012.
«De debate quinzenal em debate quinzenal a situação é sempre pior», constatou, frisando que «tudo, absolutamente tudo, está a evoluir no pior sentido, com a crise a assumir uma dimensão crescentemente dramática».
«Tudo assume uma dimensão cada vez mais assustadora», afirmou, tendo em conta o «desemprego, a recessão económica, a dívida, os dramas sociais que crescem a um ritmo avassalador com o empobrecimento generalizado e o aumento da pobreza extrema e da exclusão social».
Com efeito, observou, a «cada trimestre que passa cava-se mais fundo a nossa desgraça», sendo certo, advertiu, que «ainda agora a procissão vai no adro, ou seja, ainda não são visíveis todas as consequências das medidas do Orçamento do Estado para o corrente ano». Aludia em concreto ao «impacto do confisco sobre os rendimentos do trabalho», aos cortes nos salários, reformas, prestações sociais e no investimento, às privatizações e à venda do melhor património do País.
Daí que o líder comunista tenha a percepção de que «o País já não consegue ouvir e suportar este Governo e esta maioria dizerem que o desemprego é o mais importante problema do país e nada fazerem»,(...) «dizerem que estão muito preocupados, mas tudo segue um rumo pior», (...) «falarem em viragem da situação e de uma recuperação que nunca chega, que nunca mais chega, apesar dos anúncios constantes para 2012, para 2013, para 2014». Em suma, rematou, «o País está farto de tanta hipocrisia e dissimulação».
Fantasias
Que está «tudo em linha com as previsões do Governo», afirmara já antes o chefe do Governo ao ser confrontado com as críticas das bancadas da oposição.
Como «seria se não estivessem», comentaria o líder comunista, que já antes observara que as respostas de Passos Coelho às questões que lhe são colocadas «valem tanto como as suas previsões».
Previsões a que Jerónimo de Sousa dedicou ainda algum do seu tempo para observar que «poucos» são os que acreditam nelas, remetendo-as para o domínio da «completa fantasia». Por isso, e perante a evolução do País e o seu previsível agravamento, a grande questão que está colocada a todas as forças políticas, argumentou, «não é o quanto pior melhor, a pensar nas eleições, mas tomar, de facto, todas as medidas para uma saída urgente desta grave situação».
E para Jerónimo de Sousa «a principal e mais urgente medida», neste quadro, é clara e só uma: «a demissão deste Governo, pondo um ponto final nesta política».
A alternativa
Palavras de confiança preencheram ainda a intervenção do Secretário-geral do PCP, para quem esta situação não é inevitável – o País não está condenado a ter que viver assim», enfatizou –, pelo contrário, «há soluções para os problemas do País», «há alternativas a esta política de ruína nacional».
Uma alternativa, defendeu, que «possa centrar-se na rejeição dessa «arma de destruição colectiva» que é o pacto de agressão, adoptando uma política capaz de «promover o desenvolvimento, a produção e a riqueza nacional, a criação de emprego, uma justa distribuição da riqueza, uma política capaz de devolver ao País o que é do País, de o resgatar da dependência, recuperá-lo e devolver aos trabalhadores e ao povo os seus direitos, os salários, os seus rendimentos».
Passos Coelho, na resposta, depois de afirmar que é também sua função «não deixar as pessoas mergulhar num desespero», garantiu que «não estamos hoje pior do que estávamos quando começámos esta tarefa». E insistiu que «a confiança dos credores internacionais no País está a restabelecer-se» e que esse «é meio caminho andado, porque sem isso não haverá financiamento para a economia nem para as empresas nem para as famílias».
Jerónimo de Sousa, na réplica, sobre a referência do primeiro-ministro a uma alegada melhoria da situação, fez-lhe o reparo de que não disseram foi «para quê e para quem» é que está melhor.
«Eu não tenho dúvidas que em relação por exemplo à situação financeira, aos interesses dos banqueiros, a situação está melhor. Mas foi à custa de vidas, de emprego, de salários, de reformas e pensões, à custa dos que menos têm e menos podem», assinalou, realçando que foi isto que o chefe do Governo devia ter clarificado e não o fez.
«Grândola» traz-nos Abril
«Emociono-me, sim». O Secretário-geral do PCP respondia afirmativamente à observação do chefe do Governo que sugerira que ele fora vulnerável à exteriorização desse sentimento. «Quase se deixa comover pela situação», afirmou Passos Coelho, numa alusão às palavras de Jerónimo de Sousa que reafirmara que «bem pode o Governo cortar a esperança que ela nunca morre».
«Emociono-me quando um reformado, quando um desempregado, quando um trabalhador a quem foi roubado parte do salário, quando um pequeno empresário vem ter comigo e me fala da sua falência e da vida negra que tem. Senhor primeiro-ministro, quero dizer-lhe: no dia em que me deixar de emocionar, no dia em que deixar de transmitir esses sentimentos na AR não estou aqui a fazer nada. E é por isso que aqui estou, para denunciar, para combater, para exigir uma nova política para Portugal», declarou, peremptório, o líder do PCP.
Original acção de protesto e denúncia contra as políticas do Governo e da troika foi também a que protagonizaram as dezenas de pessoas que assistiam ao debate das galerias e que a dada altura interromperam o primeiro-ministro entoando a Grândola Vila Morena. A canção de Zeca Afonso que traz à memória como nenhuma outra o 25 de Abril ressoou, em coro, bem alto, no hemiciclo até que o grupo de pessoas foi forçado a abandonar as galerias. «Das formas como os trabalhos podem ser interrompidos, esta parece a de mais bom gosto», comentou Passos Coelho, refeito da surpresa, sem perder o verniz.