Quanto for preciso

Anabela Fino

Os pseudo-de­bates sobre a re­forma/​re­fun­dação/​ou lá o que seja do Es­tado estão a tornar-se uma ver­da­deira epi­demia. O fre­nesim para con­vencer tudo e todos da «ine­vi­ta­bi­li­dade» do corte de quatro mil mi­lhões de euros nas fun­ções so­ciais do Es­tado não só pa­rece não ter fim como co­meçou a ser api­men­tado, di­gamos assim, nos úl­timos dias com a pos­si­bi­li­dade de, a curto prazo, ser ne­ces­sário des­co­brir onde cortar mais quase outro tanto. Ao que pa­rece, a agen­dada poda de quatro mil mi­lhões não chega para fixar as contas pú­blicas nos mí­nimos im­postos pelas troikas quando chegar ao fim o prazo dos cortes pro­vi­só­rios apli­cados pelo Go­verno aos fun­ci­o­ná­rios pú­blicos, pelo que será ne­ces­sário cavar ainda mais fundo a cova do de­sastre na­ci­onal.

Pe­rante ta­manha ca­la­mi­dade, o nú­mero de co­men­ta­dores e ana­listas de ser­viço foi re­for­çado, re­pescou-se do baú das an­ti­gui­dades ve­lhas caras co­nhe­cidas, foi-se à cata de ou­tras tantas menos co­nhe­cidas, e não há dia nem hora em que o in­cauto ci­dadão não tro­pece com con­fe­rên­cias, mesas re­dondas, en­tre­vistas, aná­lises e re­fle­xões sobre o as­sunto.

Por coin­ci­dência – ou talvez não – entre tanta hora e latim gastos na ma­téria nem à lupa se en­contra mais do que es­cassos mi­nutos de opi­nião em contra-cor­rente. Por mais crí­ticas que pa­reçam al­gumas das vozes com efec­tivo aco­lhi­mento nos meios de co­mu­ni­cação do­mi­nantes, nem uma chega se­quer a aflorar o que de­veria ser a con­clusão ló­gica dos res­pec­tivos dis­cursos: o pro­blema está no sis­tema po­lí­tico e não há re­forma pos­sível que con­duza a so­lu­ções justas e du­ra­douras. Mais, nem se­quer é ad­mi­tida a pos­si­bi­li­dade, dentro do sis­tema, de qual­quer outra po­lí­tica que não a mesma que con­duziu o País ao es­tado a que se chegou.

Um epi­sódio re­cente ilustra bem esta re­a­li­dade. Num desses pseudo-de­bates de que fa­lamos, onde o con­tra­di­tório é só de faz de conta, con­cluiu-se a pá­ginas tantas o óbvio: que os mi­lhares de mi­lhões de em­prés­timo que o povo paga com a sua cres­cente mi­séria de nada ser­viram para o de­sen­vol­vi­mento do País. Cer­ta­mente por des­cuido, o mo­de­rador de ser­viço fez a per­gunta fa­tí­dica: quer isso dizer que o Par­tido Co­mu­nista tem razão quando diz que o res­gate só serviu para salvar a banca? Sem poder fugir ao es­cru­tínio da câ­mara, o co­men­tador de turno en­goliu em seco – com a maçã de adão em ma­ni­festo de­sa­tino – antes de co­meçar a ali­nhar pa­la­vras atrás umas das ou­tras, numa ten­ta­tiva de­ses­pe­rada de, sem se con­tra­dizer, não dar o cré­dito a esses in­con­ve­ni­entes dos co­mu­nistas. Não res­pondeu à questão. Des­viou o as­sunto.

En­tre­tanto, o mas­sacre con­tinua. Mar­tela-se até à exaustão na ine­vi­ta­bi­li­dade dos cortes porque vi­vemos acima das nossas pos­si­bi­li­dades, com isso se que­rendo jus­ti­ficar que a saúde e o en­sino, sendo para todos, são mais para uns do que para ou­tros, em função do ta­manho da bolsa de cada um; que as pres­ta­ções so­ciais, ga­ran­tidas pelas con­tri­bui­ções do tra­balho, são um alvo a abater para que a mão-de-obra volte a ser es­crava e a ca­ri­dade triunfe sobre o di­reito à dig­ni­dade.

É por estas e por ou­tras que no sá­bado é pre­ciso sair à rua, e voltar a fazê-lo quantas vezes for pre­ciso para – como não nos can­samos de dizer – mudar de go­verno e mudar de po­lí­tica.



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