França neocolonial

Albano Nunes

A so­cial-de­mo­cracia está trans­for­mada num pilar do im­pe­ri­a­lismo

Quando pela pri­meira o PCP usou a pa­lavra «re­co­lo­ni­zação» na ca­rac­te­ri­zação da po­lí­tica do im­pe­ri­a­lismo, a al­guns pa­receu ex­ces­siva a for­mu­lação. De­pois da po­de­rosa vaga do mo­vi­mento de li­ber­tação na­ci­onal que pra­ti­ca­mente varreu do mundo o co­lo­ni­a­lismo, «ne­o­co­lo­ni­a­lismo» foi o termo uti­li­zado para sig­ni­ficar que a for­mação de es­tados for­mal­mente in­de­pen­dentes não re­pre­sen­tava afinal a real con­quista da so­be­rania. Isto porque as ex-po­tên­cias co­lo­niais com a ajuda do FMI e do Banco Mun­dial ra­pi­da­mente cri­aram me­ca­nismos de «ajuda» e «co­o­pe­ração» que ataram de pés e mãos os novos países in­de­pen­dentes e sa­bo­taram co­ra­josas ten­ta­tivas de de­sen­vol­vi­mento in­de­pen­dente e pro­gres­sista. E o de­sa­pa­re­ci­mento do so­ci­a­lismo como sis­tema mun­dial deixou campo livre a uma contra-ofen­siva que re­pre­senta um gi­gan­tesco salto atrás no pro­cesso de li­ber­tação dos povos opri­midos e con­fi­gura um au­tên­tico re­gresso aos ne­gros tempos do co­lo­ni­a­lismo.

Vem isto a pro­pó­sito da in­ter­venção mi­litar da França no Mali, a que é ne­ces­sário voltar, não apenas para ava­liar as suas graves im­pli­ca­ções so­ciais, po­lí­ticas e mi­li­tares no país e na re­gião, mas para medir o seu mais pro­fundo sig­ni­fi­cado em re­lação à es­tra­tégia da classe do­mi­nante fran­cesa.

Uma pri­meira ob­ser­vação se impõe: a con­ti­nui­dade no fun­da­mental das po­lí­ticas do go­verno da «di­reita» de Sar­kozy e do go­verno «so­cial-de­mo­crata» de Hol­lande con­fir­mando que, com ine­vi­tá­veis nu­ances, ambos servem o grande ca­pital francês e que a so­cial-de­mo­cracia está hoje efec­ti­va­mente trans­for­mada num pilar do im­pe­ri­a­lismo. O que com Hol­lande a França está a fazer no Mali vem na con­ti­nui­dade, e tem o mesmo sinal de classe, do que fez com Sar­kozy na Líbia. Uma se­gunda ob­ser­vação para chamar a atenção para a in­serção da in­ter­venção no Mali nos am­bi­ci­osos pro­jectos da França em África. À in­fluência po­lí­tica e eco­nó­mica de cariz «ne­o­co­lo­nial» em países como Mar­rocos ou o Se­negal junta-se a in­ter­fe­rência aberta com o apoio des­ca­rado a golpes de Es­tado e a di­ta­duras que, como no caso do Chade ou da Re­pú­blica Centro Afri­cana, os trans­forma em pla­ta­formas de uma po­lí­tica de in­ge­rência e agressão que nem se­quer se li­mita à «África fran­có­fona», como se viu em An­gola com o apoio à UNITA. Hoje há bases mi­li­tares e tropas fran­cesas es­pa­lhadas por uma vasta re­gião que vai do Atlân­tico ao Mar Ver­melho e abrange a maior parte do Sahel. O in­ter­ven­ci­o­nismo re­co­lo­ni­zador da França, sendo par­ti­cu­lar­mente vi­sível em África não se cir­cuns­creve a este con­ti­nente como mostra o seu pro­ta­go­nismo no Lí­bano, o apoio aos si­o­nistas de Is­rael, a hos­ti­li­dade ao Irão, a in­sis­tência com que o go­verno de Hol­lande tem in­ci­tado à agressão à Síria e ao der­rube do seu re­gime.

Na aná­lise das pers­pec­tivas de evo­lução da si­tu­ação in­ter­na­ci­onal é ne­ces­sário não su­bes­timar o im­pe­ri­a­lismo francês e a sua ten­tação para res­ponder à crise do ca­pi­ta­lismo com uma fuga para di­ante agres­siva. A França, berço de grandes re­vo­lu­ções, de grandes con­quistas do mo­vi­mento ope­rário e grandes avanços de ci­vi­li­zação, é também berço de uma bur­guesia pro­fun­da­mente re­ac­ci­o­nária e in­cli­nada aos pi­ores crimes, como se viu na san­grenta re­pressão da Co­muna de Paris, na traição fas­cista de Pe­tain, ou no terror contra a re­vo­lução ar­ge­lina. Esta re­a­li­dade his­tó­rica não deve ser es­que­cida. A França é uma po­de­rosa po­tência eco­nó­mica, po­lí­tica e mi­litar, par­tilha com a Ale­manha a he­ge­monia do bloco im­pe­ri­a­lista que é a União Eu­ro­peia, é membro per­ma­nente do Con­selho de Se­gu­rança da ONU, re­gressou ao co­mando da es­tru­tura mi­litar da NATO e dispõe de um po­de­roso ar­senal nu­clear.



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