Asfixia financeira do poder local

Parte da ofensiva contra os interesses populares

Jorge Cordeiro (Membro da Comissão Política)

Se há ele­mento in­va­ri­a­vel­mente pre­sente na po­lí­tica de di­reita e na sua ofen­siva contra o poder local de­mo­crá­tico ele é, sem dú­vida, o ataque di­ri­gido à au­to­nomia fi­nan­ceira. Uma con­ti­nuada ofen­siva que, su­por­tada na dis­torção do en­qua­dra­mento po­lí­tico e cons­ti­tu­ci­onal do re­gime de fi­nanças lo­cais, as­senta na ideia de que as trans­fe­rên­cias para as au­tar­quias se­riam um en­cargo pe­sado para o Es­tado e a de que essas trans­fe­rên­cias re­sul­ta­riam de um gesto de boa von­tade que, a cada mo­mento ou ciclo de uma dada lei de fi­nanças lo­cais, este en­ten­deria atri­buir.

O Go­verno quer li­quidar a au­to­nomia fi­nan­ceira das au­tar­quias

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Os pro­mo­tores desta ofen­siva fogem ao es­sen­cial: as trans­fe­rên­cias para as au­tar­quias são um im­pe­ra­tivo cons­ti­tu­ci­onal que as con­cebe e con­sagra ao mesmo nível dos re­cursos pú­blicos de que o Es­tado dispõe para al­cançar os seus fins e as­sumir as suas res­pon­sa­bi­li­dades. A ade­quada e justa re­par­tição dos re­cursos pú­blicos que su­ces­sivos go­vernos têm re­cu­sado é não apenas um dos pi­lares da au­to­nomia do Poder Local como também ex­pressão dos in­te­resses das po­pu­la­ções, do di­reito à pres­tação de ser­viços pú­blicos de qua­li­dade, ao pro­gresso e de­sen­vol­vi­mento local.

Assim se com­pre­ende que o per­curso das fi­nanças lo­cais tenha sido mar­cado pelo per­ma­nente con­flito entre os textos da lei e a sua apli­cação, num pro­cesso pro­gres­sivo de vi­o­lação da au­to­nomia e de re­dução da ex­pressão dos meios fi­nan­ceiros, em que o vo­lume de par­ti­ci­pação dos re­cursos pú­blicos foi sendo cons­truído sobre as ruínas do in­cum­pri­mento do re­gime legal que o an­te­ce­dera.

Se o re­gime apro­vado em 2007 — um passo mais ou­sado de re­tro­cesso na au­to­nomia fi­nan­ceira e nos re­cursos das au­tar­quias — foi cons­truído em nome dos dogmas or­ça­men­tais as­so­ci­ados às ori­en­ta­ções ca­pi­ta­listas do­mi­nantes, e já in­se­pa­rável da po­lí­tica mo­ne­ta­rista di­tada pelo Pacto de Es­ta­bi­li­dade cen­trada na ob­sessão pelo dé­fice e pela re­dução da des­pesa pú­blica, a pro­posta de lei que o ac­tual Go­verno agora en­tregou no Par­la­mento as­sume sem ro­deios a sub­versão do poder local.

A am­bição de uma re­visão do re­gime de fi­nanças lo­cais numa pers­pec­tiva mais ampla e ali­nhada com as prin­ci­pais op­ções ne­o­li­be­rais, que há muito vinha sendo ma­ni­fes­tada, en­contra agora ex­pressão plena. Na linha das op­ções e con­cep­ções de re­dução do papel do Es­tado, de­sin­ves­ti­mento pú­blico, ali­e­nação de fun­ções e ser­viços pú­blicos e one­ração cres­cente sobre as po­pu­la­ções, o di­ploma expõe e as­sume sem ro­deios uma po­lí­tica que, to­mando par­tido pelos in­te­resses do centro do ca­pi­ta­lismo trans­na­ci­onal, aliena em ab­so­luto o in­te­resse na­ci­onal, o de­sen­vol­vi­mento e a co­esão ter­ri­to­rial.

Pelo di­reito a uma vida digna

É ver­dade que 2010 marca o início de uma nova fase de total ar­bi­tra­ri­e­dade e vi­o­lação do re­gime de fi­nanças lo­cais. A pre­texto, e em nome dos PEC do go­verno PS e do «me­mo­rando de en­ten­di­mento», as au­tar­quias lo­cais viram ser re­ti­rados, desde aí, mais de 1200 mi­lhões de euros. Mas o que agora se apre­senta cons­titui um passo qua­li­ta­tivo nesse per­curso.

A ac­tual pro­posta as­sume, sem mais, o pro­pó­sito da li­qui­dação da au­to­nomia fi­nan­ceira. Uma pro­posta contra as po­pu­la­ções e o poder local, de ne­gação do di­reito ao de­sen­vol­vi­mento local; amar­rada aos ob­jec­tivos do pacto de agressão, de em­po­bre­ci­mento do País e de ruína dos por­tu­gueses em total des­prezo para com as ne­ces­si­dades do povo e do seu di­reito ao bem-estar, de aban­dono e con­de­nação de vastos ter­ri­tó­rios e re­giões do País ao atraso e sub­de­sen­vol­vi­mento; di­ri­gida ao duplo ob­jec­tivo de impor a as­fixia fi­nan­ceira e de ins­ti­tu­ci­o­na­lizar uma ile­gí­tima in­ge­rência na au­to­nomia local por via de uma efec­tiva tu­tela de mé­rito e in­ter­ven­tiva; ci­ni­ca­mente apre­sen­tada como des­ti­nada a acabar com a «de­pen­dência do imo­bi­liário» mas con­sa­grando de facto, como réstia de so­bre­vi­vência, uma ar­qui­tec­tura fi­nan­ceira que terá no imo­bi­liário a prin­cipal fonte de re­ceita; con­ce­bida para pro­longar à força no plano local o saque fiscal (e ta­ri­fário) e a re­dução abrupta da pres­tação de ser­viços e fun­ções pú­blicas; in­te­grando um vo­lume de trans­fe­rên­cias que cor­res­pon­derá a um corte de um quarto do seu mon­tante (mais de 500 mi­lhões de euros) e à sua fi­xação em valor in­fe­rior ao de 2007; as­su­mindo ar­bi­tra­ri­a­mente o prin­cípio de que a lei tem o «valor» que a cada mo­mento os go­vernos en­ten­derem que é para ser cum­prido ou não!

Com­ba­tendo e ven­cendo a vaga de de­ma­gogia e fal­si­dades da ofen­siva ide­o­ló­gica contra o poder local que acom­pa­nhará este de­bate – des­pe­sismo, agra­va­mento do dé­fice, em­pe­cilho à con­tenção da des­pesa pú­blica e à con­so­li­dação or­ça­mental – a ta­refa pre­sente é a de mos­trar que o que se pre­para é tão só uma peça mais na en­gre­nagem de ex­pro­pri­ação do di­reito a uma vida digna das po­pu­la­ções, um novo passo no saque aos ren­di­mentos e no de­clínio eco­nó­mico e so­cial que a todos con­voca para a der­rotar com a luta pela de­missão do Go­verno, pela re­jeição do pacto de agressão e a der­rota da po­lí­tica de di­reita.



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