Rabo escondido com o gato de fora
Se houvesse um prémio nacional da desfaçatez, Paulo Portas devia ganhar. Aliás, já o devia ter ganho há anos e agora merecia o prémio-carreira. Numa cerimónia tipo Globos de Ouro, seria fácil montar o vídeo com os seus melhores momentos: Paulo Portas jovem jornalista promissor, Paulo Portas saltando cadeiras num congresso do CDS para apertar a mão ao presidente do partido, Portas Paulinho das feiras, Portas defensor dos ex-combatentes, Portas dos velhinhos, Portas da lavoura, Portas do partido do contribuinte, Portas da segurança – e por aí fora. Material não falta.
O romance em torno do Orçamento do Estado para 2013 é só mais uma peça no currículo. Foram escritos rios de tinta e gastas horas de comentário televisivo sobre o «silêncio» de Paulo Portas, usado para agitar o fantasma da «instabilidade» e da «crise», como se instáveis e mergulhadas na crise não estivessem já as vidas dos portugueses. Rios de tinta e horas televisivas onde todos fingiam não ter reparado que foi o Governo PSD-CDS que propôs este Orçamento e que Portas e o CDS se sentam no Conselho de Ministros. Depois de três dias de silêncio, Portas enviou às redacções ao raiar do dia um comunicado em que – ó espanto!, ó surpresa! – revela que vai aprovar o Orçamento. O tal que já tinha aprovado no Conselho de Ministros. O tal que cumpre o que a troika estrangeira acordou com a troika nacional – CDS incluído – e se materializa no pacto de agressão ao nosso povo e ao nosso País. Para enfatizar o lance dramático, em jeito de reconciliação e superior patriotismo, CDS e PSD juntam-se em jornadas parlamentares conjuntas. Como se dizia dantes, em tempos muito negros: a bem da nação.
Diz-se, quando alguém ou alguma ideia está mal escondida ou mal disfarçada, que o gato está escondido com o rabo de fora. Aqui já é ao contrário: está o gato todo à mostra. Por mais artista que seja, para milhões de portugueses é indesmentível a responsabilidade de Portas e do CDS nesta política de roubo.