O exigente caminho para a alternativa
A concretização da alternativa política emerge, na actual conjuntura, com redobrada actualidade. Alternativa tão inadiável e urgente quanto complexa e exigente, em que o processo para a sua indispensável construção resultará não de actos proclamatórios mas de uma acção determinada, coerente e persistente capaz de fazer confluir o conjunto de factores subjectivos e objectivos que lhe dê corpo.
A convergência reclama seriedade de processos e nitidez de objectivos
A luta pela alternativa não se compadece, por mais que se queira adquirida, com simplificações e actos isolados. Olhe-se pelo lado que se quiser olhar, seja pelo lado da sua expressão institucional seja pela dimensão da movimentação de massas que a poderá ditar, a alternativa exige um programa político claro, percepção sobre causas e responsáveis pela situação que a reclama com crescente premência, forças e energias identificadas com o objectivo da sua concretização.
Se a preparação do XIX Congresso do PCP daria justificação à presente abordagem, a recente realização do denominado «congresso democrático das alternativas» reclama uma frontal clarificação. Não se nega, bem pelo contrário, como insistentemente temos sublinhado, a imperiosa necessidade de uma alargada convergência enquanto factor, que a par de outros tão ou mais determinantes, ainda que deles não separado, dê expressão à alternativa política que se impõe. O que se sublinha é que essa convergência reclama seriedade de processos, clareza de propósitos, nitidez nos objectivos enunciados. Uma convergência que se deve apresentar despida de preconceitos, sejam os que se patenteiam das mais pequenas às mais significativas expressões – quer os que carreiam a despropósito a adjectivação de «democrático» para qualificar a busca da alternativa, quer os que desde o início da sua preparação visaram iludir o papel do PCP enquanto força política incontornável para essa alternativa.
Uma convergência assente num diálogo sério e numa lisura de procedimentos (a tal «decência» reclamada para designação da iniciativa) que vise a busca de uma leal cooperação e não uma preconceituosa ostracisão pensada, não para alargar vontades, mas sim para animar divisões. Seriedade incompatível com processos em que se define e fixa com terceiros, durante quase seis meses, o que virá a caber na anunciada convergência que se arvora à pretensão de abrangente, e em que se reserva aos comunistas o passivo papel de alguns virem a ser contactados, em vários casos por destacados dirigentes de outros partidos, num percurso dirigido não a um sério comprometimento do partido a que pertencem mas a um envolvimento cuja motivação parece ser determinada não pela agregação do PCP mas com a ambição de animar a sua divisão.
Reforçar espaços de convergência
Uma convergência que admitindo e pressupondo um natural, diversificado e diferenciado conjunto de pontos de vista, não pode deixar de levar em linha de conta que ela deve ser determinada pelo objectivo a que se propõe, estabelecida e construída na clara distinção entre diferenças de opinião unidas no propósito enunciado, que se saudaria, e uma verificada panóplia de posicionamentos reunidos para dar justificação a uma convergência que a contradiz e lhe nega os objectivos. Dir-nos-ão, os que sustentam a coerência e o propósito da iniciativa que – perante a presença de um punhado de deputados do PS que ainda mal acabado de juntar o seu voto à aprovação das alterações à legislação laboral se apressaram a lavar a imagem à boleia das «alternativas democráticas» – ali cabe quase tudo e o seu contrário sem que isso comprometa as pretendidas «alternativas».
Dir-lhes-emos que assim seria se daí resultasse construção da alternativa de esquerda e não um fazer de caminho para abrir espaço a soluções assentes na alternância que nos conduziu até ao sítio para o qual se busca a procurada alternativa; se daí resultasse uma clara condenação não só do Governo ali justamente repetida e enfatizada, mas também a denúncia da política de direita tão ruidosamente esquecida; se daí emergisse, como elemento de clarificação política indispensável ao acerto do que se diz querer derrotar, para lá do verberar da troika estrangeira, a necessária, ainda que incómoda para alguns dos presentes, denúncia do papel da troika nacional; se daí sobrasse não apenas uma ou outra meritória afirmação de compromisso com a soberania nacional, mas também a corajosa denúncia do processo de integração capitalista da União Europeia, sem a qual o valor da primeira é pouco mais do que retórica sem sentido e eficácia.
A genuína inquietação e vontade de alguns dos que passaram pela Aula Magna para construir a força que assegurará a ruptura com o actual rumo marcarão seguramente encontro com o PCP e a sua reiterada disponibilidade para uma ampla convergência de democratas e patriotas. O PCP não receia, antes deseja, o reforço e ampliação dos espaços de convergência.
Mas também não receia e ainda menos sucumbe à pressão dos que, pensando jogar com o anátema do isolacionismo, do sectarismo ou da gratuita acusação do hegemonismo, julgam poder empurrar os comunistas para projectos que desfocam o objectivo e dispersam a concentração da direcção principal do que a alternativa exige enquanto processo inseparável da ruptura com a política de direita e dos seus promotores nos últimos 36 anos.